Mudanças na dieta e ansiedade durante a pandemia do coronavírus: uma pesquisa multinacional

Autores: Vered Kaufman-Shriqui, Daniela Abigail Navarro, Olga Raz, e Mona Boaz
Revista: Eur J Clin Nutr. 2021 Mar 19: 1-9

Introdução
A pandemia da COVID-19 levou muitos governos a impor estratégias de triagem, atenuação, auto-isolamento em larga escala e/ou medidas para controlar o surto. O surto em si e as medidas tomadas para controlá-lo têm sido associados à ansiedade.
Foi documentada associação entre ansiedade e ingestão de alimentos específicos. Estudos em animais demonstram que a ingestão de alimentos doces e palatáveis parece conferir alívio do estresse, enquanto a retirada da ingestão excessiva de lipídios a longo prazo aumenta o estresse. Em humanos, a ingestão elevada de açúcares de adição e de gorduras saturadas, mas não o aumento da ingestão calórica em si, tem se mostrado positivamente associada à ansiedade.

De forma mais geral, a ansiedade tem sido associada à obesidade e outros comportamentos de risco à saúde em adultos. Isso é relevante no contexto da pandemia da COVID-19 porque 94% dos pacientes hospitalizados e que morream, tinham pelo menos uma comorbidade associada à obesidade, como diabetes, doença cardiovascular, doença pulmonar crônica, hipertensão e determinados tipos de câncer. Por outro lado, uma dieta saudável pode proteger contra a ansiedade.

A dieta mediterrânea (MedDiet), caracterizada pela ingestão frequente de azeite, frutas, legumes, grãos integrais, leguminosas, peixes e nozes, e ingestão pouco frequente de carnes vermelhas e processadas e açúcares adicionados, está associada à redução da mortalidade por todas as causas, bem como ao risco reduzido de doenças crônicas degenerativas, incluindo certos tipos de câncer, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. A pontuação de MedDiet também tem se mostrado inversamente associada à depressão e ansiedade entre adultos. Assim, o grau em que uma dieta individual é semelhante ao MedDiet pode ser usado como uma estimativa da qualidade da dieta. Assim, a hipótese do presente estudo é que a qualidade da dieta estaria associada à ansiedade durante a pandemia da COVID-19.

Objetivo
Estudo concebido para estimar o grau em que os hábitos alimentares eram consistentes com o padrão da (MedDiet), associado à redução da mortalidade, por todas as causas, e determinar o grau em que a adesão ao padrão MedDiet, está associada à ansiedade durante a pandemia COVID-19 2020.

Discussão
O presente estudo indica que a qualidade da dieta foi inversamente associada à ansiedade moderada a grave durante a pandemia da COVID-19. Especificamente, em nosso modelo, cada aumento de um ponto na pontuação MedDiet foi associado a uma redução de quase 7% nas chances de ansiedade moderada a grave. Mais de 50% dos participantes do estudo apresentaram pontuação, na Escala de Transtorno de Ansiedade Generalizada de 7 itens (GAD-7), consistente com ansiedade pelo menos leve. Essa taxa é consideravelmente maior do que a prevalência de ansiedade na população geral, que é estimada em 1,9-5,1%. No entanto, deve-se ressaltar que nossa população de estudos é uma amostra, de entrevistados, obtida sites públicos e pessoais de mídia social, com um pedido aos entrevistados para responder a pesquisa, portanto, é concebível que indivíduos particularmente ansiosos optem por participar da pesquisa.

O aumento do escore de MedDiet foi associado à redução das chances de ansiedade moderada a grave, enquanto um declínio na qualidade da dieta durante o surto em comparação com a dieta pré-pandemia aumentou o risco para este desfecho. Na análise do ganho de peso foi associado a um aumento da pontuação média do GAD-7. Uma série de mecanismos foram propostos para explicar como a dieta pode modular a ansiedade. Uma dieta rica em gordura tem sido associada ao aumento dos níveis de corticosterona e ao aumento dos níveis de citocinas inflamatórias circulantes e à interrupção de cascatas intracelulares envolvidas na plasticidade sináptica. Tem sido demonstrado que, uma dieta rica em carboidratos refinados, podem levar as células da micróglia a liberarem citocinas pró-inflamatórias, o que parece promover a ansiedade em humanos.

Foi demonstrado que o estado metabólico (incluindo a obesidade), idade e sexo influenciam na gravidade clínica da COVID-19. Isso sugere que, aumentos curtos e abruptos na ingestão de energia, juntamente com a redução da atividade física, poderiam produzir consequências adversas à saúde em um período limitado. De fato, essas alterações agudas têm sido associadas ao aumento da gordura corporal total, e particularmente, à gordura abdominal, possivelmente impulsionada pela resistência à insulina e aumento das citocinas inflamatórias circulantes. Assim, o controle adequado das doenças metabólicas pode ser importante para reduzir o risco de COVID-19 grave.

As taxas de mortalidade de COVID-19 irregulares em toda a Europa podem ser parcialmente explicadas por diferenças nutricionais. Países europeus, com alta atividade da enzima conversora de angiotensina (ECA), e dietas ricas em antioxidantes, com ingestão de repolho cru ou fermentado, apresentaram taxas de mortalidade relativamente baixas para COVID-19. No presente estudo, a má qualidade da dieta, que pode prever a obesidade, idade e sexo estiveram associados à ansiedade.
Foi relatado anteriormente, uma associação inversa entre sintomas de ansiedade e idade, a trajetória longitudinal da ansiedade é corresponde à meia-idade até a 7ª década de vida, com um diminuição modesta, depois desta idade. O sexo feminino foi associado ao aumento da ansiedade, um achado consistente em trabalhos anteriores. O aumento da ansiedade generalizada nas meninas, começa na metade da adolescência, e a prevalência, dessa condição, na vida nas mulheres é quase o dobro da dos homens. Um maior escore de MedDiet também foi associado com menor ganho de peso, relatado pelo próprio paciente, e um melhor padrão de dieta, durante a pandemia.

Esses achados podem ter implicações para as intervenções em saúde pública. Por exemplo, programas online que promovam a adoção e/ou manutenção de hábitos de vida saudáveis, particularmente a dieta, juntamente com técnicas de redução do estresse, podem beneficiar as populações durante qualquer futura pandemia.

As associações entre qualidade da dieta e ansiedade são apenas correlacionais. Além disso, muitas das correlações foram relativamente fracas, embora significativas, provavelmente devido ao grande tamanho da amostra. Como a qualidade da dieta e o desfecho, escore de ansiedade, foram medidos simultaneamente, a ordem temporal não pode ser apurada e, como tal, a causalidade não pode ser inferida. O presente estudo, no entanto, relata um grupo multinacional muito grande de entrevistados durante o rápido período de contágio da pandemia COVID-19. O poder de estudo, foi adequado para permitir a identificação de comportamentos populacionais durante uma pandemia global, e observa uma associação inversa entre qualidade da dieta e nível de ansiedade.

Infelizmente, não é possível determinar se a ansiedade desencadeia padrões alimentares não saudáveis, ou padrões alimentares não saudáveis reforçam a ansiedade. Talvez, essa associação seja bidirecional. A pesquisa on-line, distribuída internacionalmente, realizada em uma variedade de línguas, amplamente faladas, detecta associações entre níveis de ansiedade e padrões alimentares, mesmo que, realizada em uma amostra auto-selecionada. A má qualidade da dieta esteve associada ao ganho de peso, o que poderia contribuir para a obesidade; no entanto, o desenho do estudo transversal impede qualquer inferência sobre causalidade. A política preventiva voltada para a qualidade da dieta e a ansiedade devem ser testadas diretamente para determinar se ela pode reduzir os desfechos adversos do COVID-19 associados à obesidade.

Conclusão
Embora a causalidade não possa ser inferida, associações entre qualidade da dieta e ansiedade podem sugerir intervenções em saúde pública, incluindo dieta e controle do estresse durante futuros bloqueios em massa.

Leia o artigo na íntegra aqui.

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