Efeito do Lactobacillus plantarum 299v no teor de ferro e na performance física de mulheres atletas com deficiência de ferro (2020)

Autores: Ulrika Axling, Gunilla Önning, Maile A. Combs, Alemtsehay Bogale, Magnus Högström, Michael Svensson.

Revista: Nutrients

Introdução
O ferro é um micronutriente essencial para o transporte de oxigênio e metabolismo mitocondrial e é fundamental para o desempenho físico. Baixos estoques de ferro são mais comuns entre os atletas do que entre os não-atletas, e as mulheres atletas apresentam um risco aumentado para a depleção deste nutriente. O comprometimento de estoques de ferro, mesmo na ausência de anemia, pode afetar negativamente o desempenho físico e a adaptação ao treino. Alguns estudos demonstraram os efeitos benéficos da suplementação de ferro no desempenho físico das mulheres em idade reprodutiva. A deficiência de ferro é geralmente tratada com suplementos orais, entretanto uma grande quantidade do ferro ingerido permanece no intestino, o que pode resultar em efeitos adversos, sendo assim, aumentar a absorção do ferro poderia ser uma estratégia para evitar a utilização desses suplementos em altas doses e seus efeitos adversos. Estudos prévios, demonstraram que a suplementação com a cepa probiótica Lactobacillus plantarum 299v aumenta significativamente a absorção de ferro. A utilização de suplementos probióticos em atletas e sua relação com a saúde e o seu desempenho foi recentemente revisada pela Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva.

Desenho Experimental
Estudo randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, com objetivo de avaliar o efeito da ingestão diária de Lactobacillus plantarum 299v (1010 UFC) e 20 mg de ferro, durante 12 semanas, em comparação com 20 mg de ferro, sobre a reserva de ferro e o desempenho físico de atletas, avaliado atraves de teste ergométrico.

Grupo de Estudo
Indivíduos saudáveis não anêmicos (hemoglobina ≥ 120 g/L para mulheres, ≥130 g/L para homens) ambos com idade entre 16 e 40 anos, com baixas reservas de ferro (ferritina plasmática < 30 µg/L) e proteína C-reativa ≤ 5 mg/L, praticantes de esportes competitivos e com treino regular ≥5 h/semana. Os critérios de exclusão foram a utilização de produtos probióticos, suplementação com ferro, ou suplementação com ácido ascórbico durante as últimas 4 semanas antes do início do estudo, planos para mudanças substanciais na dieta, e gravidez ou planos para a gravidez nas 20 semanas seguintes. Os atletas foram orientados a não consumir produtos probióticos, suplementos adicionais de ferro, ou suplementos de ácido ascórbico durante o estudo. Foi também orientado que evitassem mudanças na ingestão de suplementos alimentares e que evitassem grandes mudanças nos hábitos alimentares. Além disso, os atletas não puderam doar ou receber sangue durante o estudo.

No total, 365 indivíduos foram selecionados para elegibilidade, porém, apenas 53 mulheres preencheram todos os critérios de inclusão e nenhum dos critérios de exclusão e foram randomizadas, excluindo-se também todos os homens.

Forma de administração do probiótico e ferro
Cápsulas contendo probiótico liofilizado Lactobacillus plantarum 299v (Lp299v) a uma concentração de 1010 UFC e 20 mg de ferro (fumarato ferroso) por cápsula e o grupo controle recebeu apenas cápsulas com 20 mg de ferro (fumarato ferroso). A dose ingerida foi de uma cápsula ao dia, juntamente com a principal refeição do dia.

Parâmetros avaliados no estudo
Foram analisados no estudo os seguintes parâmetros: idade, altura e peso foram registados no primeiro dia do estudo e utilizados para calcular o índice de massa corporal (IMC, kg/m2 ); amostras de sangue para análise de hemoglobina, fração e volume de eritrócitos (EVF), ferro plasmático, capacidade total de ligação ao ferro (TIBC), saturação de transferrina, ferritina plasmática (P-Ferritina), reticulócitos, conteúdo médio de hemoglobina reticulocitária (Ret-Hb), hCRP, hepcidina, receptor de transferrina solúvel (sTfR), e hepcidina. E ainda, TNFα, IL-6, e IL-1β também foram quantificados. teste ergométrico; perfil dos estados de humor (POMS); parâmetros gastrointestinais (trânsito intestinal, frequência de fezes e consistência, dor/desconforto abdominal, inchaço, flatulência)

Resultados/Discussão
Ao longo das 12 semanas de estudo, ambos os grupos aumentaram a concentração de ferro, apresentado um aumento de 70% em ferritina plasmática após ingestão de Lp299v com 20 mg de ferro (LpFe), em comparação com 42% após 20 mg de ferro sozinho, mas não houve diferença estatística entre os grupos. No entanto, o grupo tratado com LpFe mostrou uma tendência para níveis mais elevados de ferritina após as primeiras 4 semanas, em comparação com o controle. Esta descoberta é interessante uma vez que é importante que os atletas com deficiência de ferro restabeleçam rapidamente a reserva de ferro sem efeitos adversos, que frequentemente ocorrem com doses mais elevadas de suplementação.

Foi observado, diferenças nos subgrupos LpFe com níveis de ferritina acima de 20 µg/L na linha de base. Houve um aumento significativamente maior em ferritina após 4 semanas de ingestão em comparação com o controle, enquanto os subgrupos com níveis de ferritina inferiores a 20 µg/L não diferiram um do outro. Assim, parece que o aumento global de ferritina com LpFe é maior em indivíduos com maior concentração de ferro basal. O teor de hemoglobina reticulocitária é um indicador da disponibilidade de ferro celular em resposta à suplementação com ferro e um marcador precoce da melhora na eritropoiese. Em estudos prévios. e em revisão sistemática e meta-análise, foi demonstrado que a ingestão de Lp299v, conjuntamente com a refeição, melhora a absorção de ferro intestinal.

Os mecanismos subjacentes não são totalmente conhecidos, mas ficou demonstrado que a combinação com a capacidade da Lp299v de aumentar os níveis de redutase férrica em células de intestino humano (células Caco-2/HT29 MTX), pode explicar o efeito positivo na absorção de ferro. Embora a absorção de ferro e não tenha sido analisado neste estudo, o aumento da absorção de ferro é pelo menos um dos mecanismos subjacentes à melhoria da reserva de ferro, observado em atletas não anêmicas, com baixos estoques de ferro. Foi demonstrado que em estados inflamatórios, uma elevação sistêmica de citocinas pró-inflamatórias, tais como IL-6 e TNFα, inibe a absorção intestinal do ferro através da elevação da hepcidina. As citocinas também podem suprimir a absorção de ferro através de uma via independente da hepcidina. Curiosamente, o exercício exaustivo tem demonstrado aumentar os níveis de IL-6 e hepcidina, que pode ser um entre vários fatores que causam deficiência de ferro em atletas após intensos períodos de treino.

É conhecido que a ingestão de Lp299v suprime os parâmetros inflamatórios, e, por conseguinte, poderia levar a uma mudança na expressão da hepcidina e, portanto, à absorção do ferro. No entanto, no presente estudo, não foi possível detectar quaisquer diferenças ao longo do tempo entre os diferentes grupos, em parte devido aos níveis muito baixos de citocinas. Curiosamente, o aumento de ferritina após a ingestão de Lp229v se apresentou mais elevada no subgrupo com maior estoque de ferro. É possível que as atletas com ferritina mais baixa tivessem altos níveis de citocinas pró-inflamatórias, que estimularam um aumento do nível de hepcidina e, portanto, aumentaram a inibição da absorção de ferro.

O estoque comprometido do ferro é prejudicial ao desempenho físico, e a suplementação de ferro com a intenção de aumentar o desempenho tem sido utilizada e estudada durante muitos anos. Uma meta-análise, com base em dados de 22 estudos, mostrou que a suplementação com ferro em indivíduos com deficiência de ferro melhora o desempenho de resistência e VO2máx em mulheres.

A avaliação dos estados de humor auto-percebidos revelou um vigor melhorado no grupo LpFe em comparação com o controle. O aumento da pontuação de vigor ao longo do tempo correlacionou-se positivamente com a mudança em ferritina após a ingestão de Lp299v. Os resultados sugerem que a melhoria do estado do ferro é a causa subjacente ao aumento do vigor. No entanto, os mecanismos desta associação constituem novos desafios para futuros estudos de maior envergadura sobre atletas com deficiência de ferro.

Na literatura, a suplementação com a cepa Lp299v tem demonstrado melhorar o bem-estar gastrointestinal em uma população saudável e em indivíduos com síndrome do cólon irritável, sendo teorizado por isso que a suplementação com Lp299v pode reduzir os efeitos gastrointestinais secundários durante o exercício intenso e/ou após o consumo de suplemento de ferro. No entanto, no presente estudo, não foram observadas alterações ou diferenças no funcionamento gastrointestinal em qualquer grupo. A principal limitação deste estudo foi o tamanho relativamente pequeno da amostra, limitando a interpretação dos dados.

Leia o artigo na íntegra aqui.

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