Manejo nutricional dos distúrbios funcionais de dor abdominal na infância

Prevalência e fatores de risco para os distúrbios funcionais de dor abdominal
Os distúrbios funcionais de dor abdominal são alguns dos distúrbios mais comumente encontrados na infância, afetando até 25% de todas as crianças e bebês no mundo todo. Atualmente referidos como distúrbios também de interação intestino-cérebro, compreendem a síndrome do intestino irritável, a dispepsia funcional, a enxaqueca abdominal e a dor abdominal funcional não especificada de outra forma, conforme definido pelos critérios de diagnóstico de Roma IV. Os distúrbios de dor abdominal funcional são distúrbios comuns com uma prevalência de 3-16% dependendo do país, idade e sexo.

Os principais fatores de risco associados são o sexo, sendo mais frequentes em meninas, fatores genéticos, crianças que passaram por estresse psicológico e com a ocorrência de alguns eventos no início da vida, como mães diagnosticadas com diabetes gestacional ou hipertensão. Ainda, recentemente, Kamphorst et al. (2021) relataram que o uso de antibióticos durante os primeiros 2 anos de vida, se associa a um maior risco de distúrbios de dor abdominal posteriormente na infância.

Mecanismos fisiopatológicos associados
A fisiopatologia dos distúrbios funcionais de dor abdominal não está, ainda, muito bem esclarecida. Mas os autores não relacionam com um mecanismo único e sim com uma integração entre diversos mecanismos, como alterações do eixo cérebro-intestino, hipersensibilidade visceral (alteração da percepção das sensações viscerais e hipersensibilidade), aumento da percepção de dor por alteração da modulação dessa sensação por meio do sistema nervoso entérico e central, alterações nos mecanismos serotonérgicos, modificação da microbiota intestinal, aspectos nutritionais, mecanismos imunomediados e anormalidades na motilidade gastrointestinal.

Como é feito o diagnóstico?
Não há biomarcadores específicos para o diagnóstico dos distúrbios funcionais de dor abdominal. Assim, é necessário conduzir um histórico com detalhes da dor, episódios de infecções, eventos estressantes associados com o início dos sintomas, gatilhos alimentares, história psicossocial, entre outros pontos importantes. Alguns exames também podem ser solicitados, como hemograma, proteína-C reativa, calprotectina fecal e rastreamento de doença celíaca e, em caso de dor abdominal com a presença de diarreia, testa-se a possível presença de Giardia lamblia. Caso haja presença de outros sintomas atípicos, como vômito e sintomas urinários, o médico pode solicitar uma ultrassonografia.

4 estratégias nutricionais potenciais para auxiliar no manejo da dor abdominal em crianças

As estratégias nutricionais entram como tratamento não farmacológico desses distúrbios, de forma a restaurar a qualidade de vida das crianças.

1. Suplementação com fibras: a ingestão insuficiente de fibra alimentar na infância tem sido associada ao desenvolvimento de distúrbios funcionais de dor abdominal. A prescrição de suplementos com fibras dietéticas teve sua eficácia avaliada em estudos clínicos randomizados, conforme citado Rutten et al. (2015), que demonstraram redução de sintomas da síndrome do intestino irritável, um dos mais comuns distúrbios funcionais de dor abdominal. Ainda, uma das fibras citadas na literatura científica é o psyllium, que proporcionou redução da dor abdominal (THAPAR et al., 2020).

2. Atenção ao glúten e a alimentos com potencial relação às dores: o consumo de alimentos ricos em glúten está associado com o aumento dos sinais e sintomas dos distúrbios de dor abdominal, como salientado por Llanos-Chea e Fasano (2018). Thapar et al. (2020) ainda ressalta que poucos estudos destacaram o papel potencial da alergia alimentar não mediada por IgE em causar sintomas gastrointestinais, como a SII. Um estudo conduzido em adultos associou o consumo de trigo, leite, soja e clara de ovo se associaram com aumento da permeabilidade duodenal e da inflamação linfocítica e eosinofílica da mucosa e dos sintomas clínicos, predominantemente dor abdominal em adultos com SII, sendo que de 108 pacientes estudados, 61% reagiu ao trigo. Esses tipos de alimentos estão entre os mais
alérgenos alimentares comuns e por isso, é importante atenção clínica destes nos distúrbios gastrointestinais, também em crianças, apesar dos estudos escassos.

3. Protocolo low-FODMAPs: A má-absorção dos FODMAPs, que pode estar associada à deficiência de enzimas específicas ou capacidade de absorção limitada, pode induzir sintomas gastrointestinais, sendo, em muitos casos, indicado um protocolo alimentar baixo em FODMAPs. Isso porque para as crianças com dores abdominais, associa-se à melhora dos sintomas, mas requer atenção para a possível deficiência de nutrientes.

4. Prescrição de probióticos: A prescrição de probióticos também é indicada, principalmente da suplementação das cepas Lactobacillus rhamnosus GG e Lactobacillus reuteri, sendo associada com a restauração da microbiota intestinal alterada, mantendo a integridade da mucosa e alterando a resposta inflamatória intestinal. Estudos demonstraram que as crianças suplementadas tiveram melhor resposta ao tratamento desta condição. Newlove-Delgado et al. (2017) apontaram a suplementação com probióticos como eficaz na redução das dores abdominais.

REFERÊNCIAS

LLANOS-CHEA, A.; FASANO, A. Gluten and Functional Abdominal Pain Disorders in Children. Nutrients, 2018. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30322070/> Acesso em 04 de nov. de 2020.

RAJINDRAJITH, S. et al. Functional abdominal pain disorders in children. Expert Rev Gastroenterol Hepatol., v. 12, n.4, p. 369-390, 2018. Disponível em: < https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29406791/> Acesso em 04 de nov. de 2020.

KORTERINK, J. J. et al. Epidemiology of Pediatric Functional Abdominal Pain Disorders: A Meta-Analysis. PLOS One, v.10, n.5, 2015. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25992621/> Acesso em 04 de nov. de 2020.

NEWLOVE-DELGADO, T. V. et al. Dietary interventions for recurrent abdominal pain in childhood. Cochrane Database Syst Rev., v.3, n.3, 2017.

THAPAR N. et al. Paediatric functional abdominal pain disorders. Nat Rev Dis Primers., v.6,n.1, p.89, 2020.

Fonte: E4 Nutrition

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