Pesquisa mostra perfil de consumo de alimentos ultraprocessados entre jovens

Um estudo avaliou o perfil de consumo de jovens escolares e o tipo de escola em relação ao consumo de alimentos ultraprocessados.

A pesquisa conduzida pelo Grupo de Estudos, Pesquisas e Práticas em Ambiente Alimentar e Saúde (GEPPAAS), do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicada em revistas científicas internacionais, revelou que adolescentes de escolas privadas apresentam consumo maior de alimentos ultraprocessados do que estudantes de escolas públicas. Por outro lado, constatou, ainda, que jovens com hábitos saudáveis tendem a consumir menos bebidas açucaradas.

Os resultados deste estudo, mostram algumas semelhanças com outro estudo publicado na última edição do Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, que também trouxe resultados sobre o consumo de ultraprocessados e a correlação destes dados com o tipo de escola. Em comum, ambas as pesquisas foram baseadas nos resultados do Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (ERICA) que, por sua vez, avaliou as condições de saúde e o consumo alimentar de cerca de 75 mil estudantes entre 12 e 17 anos, de mais de 1.200 escolas públicas e particulares.

As pesquisas tocam em um ponto definitivo, isto é, a falta de regulamentação das cantinas escolas de escolas privadas como um fator que contribui substancialmente para o consumo de produtos não-saudáveis e com potencial de repercutir negativamente na saúde dos jovens, tanto no presente quanto no futuro.

Escolas privadas e os alimentos ultraprocessados
Com base nas informações do ERICA, as nutricionistas responsáveis pelo estudo, calcularam as calorias e nutrientes das refeições dos estudantes, identificando a proporção do consumo de alimentos ultraprocessados da dieta dos jovens. Posteriormente, cruzaram essas informações com dados sobre o ambiente escolar, como o tipo da escola, os hábitos de compra de lanches na cantina escola, se comiam as refeições oferecidas pela escola, se tomavam café da manhã com frequência, se utilizavam telas por mais de 2 horas por dia e se faziam as refeições assistindo televisão.

O resultado mostrou que adolescentes estudantes de escolas particulares, consomem uma proporção significativamente maior de produtos ultraprocessados do que estudantes de escolas públicas. Isto é, ambientes escolares privados, oferecem mais oportunidades para o consumo destes alimentos, assim, o potencial obesogênico das escolas particulares é maior.

Conforme o estudo, as escolas públicas são mais protegidas, pois contam com as diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). “A oferta de refeições com alimentos saudáveis, frescos, nutricionalmente e culturalmente adequados nas escolas públicas pode ser um fator protetivo contra o alto consumo de ultraprocessados entre adolescentes”, afirma o artigo. Ao passo em que as escolas particulares não regulamentam a alimentação oferecida às crianças e adolescentes.

A pesquisa mostrou que produtos ultraprocessados foram responsáveis por 28% do total energético ingerido pelos estudantes. “O Guia Alimentar para a População Brasileira indica que os alimentos ultraprocessados devem ser evitados ao máximo. Ou seja, é assustador pensar que aproximadamente 30% do consumo de energia desses adolescentes poderia estar vindo de alimentos in natura ou minimamente processados, preparações culinárias, mas está vindo de produtos ultraprocessados”, afirma a coordenadora do grupo de pesquisa, Larissa Loures.

Adolescentes e os hábitos não-saudáveis
Seguindo na esteira de estudos que observam os comportamentos alimentares dos adolescentes e os hábitos não-saudáveis deste público, a dissertação de mestrado da nutricionista Luana Lara Rocha, avaliou o consumo de bebidas açucaradas por adolescentes, relacionando com padrões de comportamento. Conforme as respostas ao ERICA, os estudantes foram categorizados em 3 grupos: com jovens de praticavam atividade física, consumiam mais copos de água por dia e maior proporção de alimentos minimamente processados; grupo com jovens fumantes e que consumiam bebidas alcóolicas com maior frequência; e grupo de estudantes que consumiam mais alimentos ultraprocessados e passavam mais de duas horas em frente às telas por dia.

Observando o padrão de comportamento de saúde, os adolescentes com hábitos saudáveis do primeiro grupo, tiveram as chances de consumo reduzidas para bebidas açucaradas. Este foi o primeiro estudo a estabelecer a relação entre o consumo dessas bebidas e de alimentos minimamente processados. Já os adolescentes dos demais grupos, com hábitos não-saudáveis, apresentaram uma frequência oposta, com maiores chances de consumo de refrigerantes e outras bebidas açucaradas.

Educação alimentar e medidas regulatórias
O estudo aponta que a fim de reduzir o consumo de bebidas açucaradas entre adolescentes e seus efeitos na saúde, é preciso adotar diversas medidas regulatórias e ações de educação alimentar. “Se o refrigerante está disponível na cantina da escola, ele vai ser desejado. Já existe um projeto de lei para proibir a venda de refrigerantes e bebidas açucaradas nas cantinas das escolas, e é um absurdo que ainda não tenha sido aprovado pelo Congresso”, afirma Larissa Loures, pesquisadora da UFMG.

Assim, para reduzir o consumo destes produtos e promover mudanças nas dietas dos adolescentes, é necessário combinar mudanças efetivas em seus ambientes, como as escolas. “A coexistência de comportamentos associados ao consumo mostra a importância de adotar intervenções multicausais para reverter esse quadro, que não foquem em um só objetivo mas que sejam mais amplas, pensem no ambiente, na casa, no comportamento”, afirma Luana Rocha, “Então é preciso regular a venda nas escolas, aumentar o preço dos ultraprocessados e bebidas açucaradas, e também realizar ações de educação nutricional com as famílias e jovens”, conclui.

“As ações educativas têm que ser antecedidas por medidas no âmbito macropolítico, que tem o poder de afetar a vida de milhões de pessoas. Só então é possível falar em educação alimentar e nutricional no âmbito individual, precisamos de um ambiente propício para que as pessoas sejam e educadas”, finaliza Larissa.

Fonte: CRN-9

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