Custos climáticos: qual é o verdadeiro “preço” dos alimentos considerando seus impactos ambientais?

Pesquisadores acrescentam à etiqueta de preços o custo climático para descobrir qual seria o “custo real” da produção de carne, leite e alimentos vegetais.

O valor atual dos alimentos de origem animal, lácteos e vegetais, não refletem os custos ambientais e climáticos associados à sua produção. Pensando nisso, uma pesquisa foi conduzida para tentar descobrir os verdadeiros custos implicados na produção desses alimentos, caso as questões ambientais e climáticas fossem consideradas.

A indústria agroalimentar é uma das principais emissoras de gases de efeito estufa (GEE), no mundo todo, acredita-se que os sistemas alimentares agrícolas, contribuem com até 30% das emissões mundiais de GEE, porém, os custos dessas emissões não são considerados nos valores dos produtos alimentícios.

Segundo os cientistas da Universidade de Augsburg, na Alemanha, responsável pelol estudo, estes quesitos deveriam ser considerados uma vez que sobrecarregam outros participantes do mercado, as futuras gerações e o meio ambiente. Neste novo estudo, os pesquisadores tiveram como objetivo, determinar os custos reais dos alimentos quantificando e monetizando as emissões de GEE na agricultura.

As diferenças entre as categorias de alimentos
No estudo, os cientistas focaram na produção de alimentos apenas na Alemanha, sugerindo que seus métodos poderiam ser aplicados a outros países como e quando necessário. Para dar o pontapé inicial ao processo de quantificação, os pesquisadores dividiram todos os alimentos em amplas categorias de produtos de base vegetal, animal ou lácteo.

A partir daí, foram criadas subcategorias de base vegetal: vegetais, frutas, cereais, tubérculos, leguminosas e oleaginosas. Em animais, os pesquisadores categorizaram ovos, aves, ruminantes e suínos e, em laticíios, apenas o leite. “Apenas o leite é considerado dentro dos laticínios, já que as etapas de processamento além do farmgate seriam necessárias para obter outros laticínios, como queijo ou manteiga”, aponta o estudo.

Os resultados mostraram que as diferenças de custos externos são especialmente grandes entre as categorias de alimentos. Sem grandes surpresas para os pesquisadores, os produtos de origem animal foram associados a custos externos muito maiores, seguidos pelo leite e por produtos à base de plantas. Além disso, a pesquisa dividiu a produção entre práticas agrícolas orgânicas e convencionais. Para produtos à base de plantas e laticínios, os métodos orgânicos geraram menos emissões do que a produção convencional, uma redução de 57% em produtos de base vegetal e 96% em produtos lácteos.

A escolha do sistema de produção foi considerada como um dos principais fatores para os alimentos de origem animal. “Nesta categoria, a produção orgânica causa 150% das emissões da produção convencional”, observaram os pesquisadores. Contudo, enfatizaram que as emissões da mudança no uso da terra ainda não foram incluídas nos dados e cálculos subjacentes. Acredita-se que as emissões modifiquem drasticamente os resultados para alimentos de origem animal.

Custo climático na etiqueta de preço
Diante desses resultados, a questão que fica é quanto mais custariam os produtos avaliados, se as emissões ambientais associadas à sua produção fossem consideradas? Conforme as descobertas do estudo, incorporar os custos climáticos ao preço dos produtos, faria com a carne aumentasse em 146%. Os produtos lácteos, por sua vez, seriam 91% mais caros do que os valores atuais e as frutas e vegetais, 25% mais caros.

Em relação aos métodos de produção orgânica para as mesmas categorias, a carne orgânica teria preço 71% maior e os laticínios orgânicos, 40%. Frutas e vegetais orgânicos, teriam preços apenas 6% mais caros do que os convencionais. “Nós mesmos ficamos surpresos com a grande diferença entre os grupos de alimentos investigados e o preço incorreto resultante de produtos alimentícios de origem animal em particular”, observou Tobias Gaugler, autor principal da pesquisa.

A co-autora do estudo, Amelie Michalke, aponta que “Se esses erros de precificação do mercado deixassem de existis ou, pelo menos fossem reduzidos, isso também teria um grande impacto sobre a demanda por alimentos. Um alimento que se torna significativamente mais caro também terá uma demanda muito menor”.

Potenciais implicações para o uso da terra e resíduos de alimentos
Os resultados do estudo apontam, ainda, que os valores dos produtos de origem animal – tanto carne quanto laticínios – devem passar por um aumento em nível significativamente maior do que os produtos vegetais. O que poderia implicar, de forma igualmente significativa, para o uso da terra. “O declínio presumido e consequente do consumo de produtos de origem animal, liberaria uma enorme massa de terra atualmente usada para a produção de rações”. Além disso, permitiria expandir a agricultura orgânica, algo que foi amplamente demonstrado no estudo, por acarretar menos custos ambientais.

Os autores do estudo observaram, também, que a internalização dos custos externos certamente resultaria em níveis inferiores de desperdício de alimentos – especialmente nas famílias – pois, “a valorização dos alimentos aumentaria com o aumento do seu valor monetário”, dizem os estudiosos, “Desse modo, seriam alcançados mais efeitos positivos sobre a eficiência e a carga ambiental da produção de alimentos”, concluem.

Fonte: Food Navigator

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