Interpretação de exames laboratoriais na Nutrição Estética por Luisa Wolpe e Rodrigo Granzoti

Colunistas Luisa Amábile Wolpe Simas e Rodrigo Otávio Chybior Granzoti

A busca pelo atendimento individualizado vem se tornando uma preocupação corriqueira entre os profissionais da área da saúde. Na nutrição estética, os exames laboratoriais e sua correta interpretação tem se tornado uma ferramenta útil para identificar e tratar distúrbios e patologias associadas à inúmeras imperfeições estéticas.
A avaliação bioquímica é um parâmetro que reflete o estado atual do indivíduo e analisá-lo é ver o paciente numa perspectiva própria e única.
Além disso, entender como os distúrbios estéticos se associam à diferentes marcadores bioquímicos e que, quando alterados, podem ser utilizados como parâmetros para o tratamento e o controle da acne, melasma, alopecia, celulite, flacidez e envelhecimento cutâneo.
No caso da celulite, tem forte relação com diferentes hormônios, muitos, dos quais, participam ativamente da sua fisiopatologia. Os estudos são unanimes em associar a celulite com o estrogênio (ROSSI e VERGANINI, 2000; TERRANOVA et al., 2006; CONTI et al., 2020).
Esse hormônio sexual exerce um papel regulador sobre o tecido adiposo, em especial sobre o tecido adiposo subcutâneo (TAS). Sua atividade anabólica sobre o TAS eleva a capacidade adipogênica e lipogênica, favorecendo, assim, a proliferação dos adipócitos e o acúmulo de gordura (JEFFERY et al., 2016). Algumas regiões do corpo da mulher são mais suscetíveis ao acúmulo de gordura sob a pele em resposta ao hormônio estrogênio, sendo, a região gluteofemoral, provavelmente, a mais sensível (Figura 1) (LEIBEL e HIRSCH, 1987; LIMA e LIMA, 2021).

Figura 1. Diferentes regiões do corpo da mulher afetada pela celulite. A – posterior de braço; B – seios; C – Escapula; D – superior do abdômen; E – inferior do abdômen; F – lateral do abdômen; G – trocânter; H – sacral; I – superior interno de coxa; J – nádegas; K – lateral de coxa; L – posterior de coxa; M – joelho. Fonte: Lima e Lima (2021).

O estrogênio (estradiol) é um hormônio produzido, predominantemente, nos ovários. No entanto, uma pequena fração pode ser sintetizada no tecido periférico, como o tecido adiposo, mamário e nervoso. Essa síntese periférica é mediada pela conversão da testosterona em estrogênio pela enzima aromatase. Vários fatores influenciam na atividade dessa enzima e o incremento da adiposidade corporal é um deles. Assim, quanto maior a massa adiposa, maior a expressão e atividade da aromatase, o que pode elevar os níveis de estrogênio em mulheres (FREEMAN et al., 2010; BULUM et al., 2012).

É possível mensurar a atividade da enzima aromatase por meio da relação estradiol pmol/L / testosterona nmol/L. Essa relação prediz a atividade da enzima aromatase ou o índice de aromatase, o que, em tese, pode demonstrar uma maior taxa de conversão. A menor atividade da enzima encontra-se quando os valores dessa relação se encontram num intervalo de 50 a 100 (LAUGHLIN et al., 2012).

A presença de receptores de estrogênio nas células endoteliais e músculo liso explica as diferenças funcionais da microcirculação feminina, principalmente, em relação ao tônus e à permeabilidade vascular. Na celulite, as alterações vasculares elevam o extravasamento de líquido para região peri-capilar e interadipócito, gerando, assim, um quadro edematoso.

O aumento do volume intersticial, somado ao aumento dos adipócitos, promovem a compressão dos vasos periféricos, reduzindo a perfusão de oxigênio e gerando um quadro inflamatório (ROSSI e VERGANINI, 2000; LIMA e LIMA, 2021).
Os níveis de estradiol flutuam ao longo do mês e seguem um ciclo menstrual. Os níveis de estradiol na fase folicular variam de 18,9 pg/mL a 246, 7 pg/mL, no pico ovulatório de 35,5 pg/mL a 570 pg/mL e na fase lútea de 22,4 pg/mL a 256 pg/mL (RIZZUTI, 2020).

O eixo fígado-intestino exerce um papel importante no metabolismo do estradiol. No fígado esse hormônio sofre reações de destoxificação e antes de ser excretado é conjugado ao ácido glucurônico (glucorunidação), se transformando em um hormônio inativo (sem atividade biológica). Após essa reação o estradiol é excretado no intestino (via bile) para ser, efetivamente, eliminado. No trato intestinal, e dependendo do perfil desse intestino, bactérias que secretam enzimas beta-glucorunidase, podem reativar o hormônio e devolver sua atividade biológica. O grau de permeabilidade intestinal pode ser determinante para que esse hormônio retorne ao sistema (elevando suas concentrações) e exerça suas funções no organismo (BAKER et al., 2017)

O bom funcionamento intestinal deve ser garantido através de condutas nutricionais:
• Ingestão de água (40ml/kg de peso)
• Consumo de frutas e verduras
• Consumo de alimentos integrais
• Diminuição de alimentos processados e ultra processados
• Incluir o consumo de alimentos fontes de fibras como linhaça, chia, aveia, amaranto, psilium
• Dieta não irritativa
• Nutrientes que ajudam nas microvilosidades como glutamina e Chlorella
• Consumo de fontes de antocianinas que ajudam na metabolização do estrogênio
• Inclusão de probiótico e probióticos
• Silício na melhora das junções intestinais

Dessa forma, conhecer os níveis hormonais do paciente e relacionar com a clínica é fundamental para traçar um plano de tratamento individualizado, capaz de minimizar as queixas estéticas.

Referências bibliográficas
BAKER, J. M. et al. Estrogen-gut microbiome axis: Physiological and clinical implications. Maturitas, 103: 45-53, 2017.
BULUM, S. E. et al. Aromatase, breast cancer and obesity: a complex interaction. Trends Endocrinol Metab., 23(2): 83–89, 2012.
FREEMAN, E. W. et al. Obesity and Reproductive Hormone Levels in the Transition to Menopause. Menopause, 17(4): 718–726, 2010.
LIMA, E.; LIMA, M. Percutaneous Collagen Induction With Microneedling. Springer, 2021.
RIZZUTI, A. Interpretando exames laboratoriais: além dos valores de referencia. Uma análise clínico-patológico-esportiva de tudo que você precisa saber para um acompanhamento individualizado, eficiente e ético. Belo Horizonte: Livro na Mão, 2020.
ROSSI, A. B.; VERGNANINI, A. L. Blackwell Science, Ltd Cellulite: a review. JEADV, 14: 251–262, 2000.

Currículos:

Luisa Amábile Wolpe Simas
Nutricionista (FIES)
Técnica em Estética Facial e Corporal (Martinus)
Especialista em Nutrição Clínica (UFPR)
Mestre em Medicina Interna (UFPR)
Consultora de Empresas de Suplementos Alimentares e Insumos Cosméticos
Professora de pós-graduação em Nutrição em várias instituições de ensino
Palestrante em congressos na área de Nutrição e Estética
Autora de livros e capítulos na Área da Nutrição e Estética
http://lattes.cnpq.br/1492298403997711

Rodrigo Otávio Chybior Granzoti
Biólogo (PUCPR)
Nutricionista (FAPAR)
Especialista em Nutrição na Saúde da Mulher: aspectos clínicos, estéticos e de performance esportiva (ESTÁCIO)
Especialista em Nutrição Estética (IPGS)
Mestre em Biologia Animal (UNESP)
Consultor de Empresas de Suplementos Alimentares e Insumos Cosméticos
Atuante em Nutrição Clínica e Estética e Saúde da Mulher
Professor de cursos na área de Nutrição Estética e Pós graduação
Palestrante em congressos na área de Nutrição e Estética
Autor de capítulos na Área da Nutrição e Estética
http://lattes.cnpq.br/0970154587649470

 

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