As mudanças climáticas e outros fatores colocam em xeque a nutrição e a desnutrição, bem como a continuidade na produção de alimentos no mundo todo.

Fatores como a erosão do solo, as práticas de manejo da terra e métodos agrícolas, além das mudanças climáticas, impactam a disponibilidade das safras de alimentos no mundo, bem como os níveis de nutrientes associados. Algumas pesquisas recentes apontam que os níveis baixos de dióxido de carbono atmosférico (eCO²) podem contribuir na flutuação da disponibilidade nutricional do solo e na absorção dos nutrientes nas culturas alimentares, assim como os níveis de minerais e proteínas destes alimentos que são, finalmente, consumidos pelas pessoas.

Mecanismos relacionados ao clima apontam para declínios na composição mineral das plantas, um fenômeno não totalmente compreendido, mas que tem como argumento de que o eCO² aumenta potencialmente o rendimento geral da colheita, o que pode ser benéfico em algumas situações, ainda que a qualidade mineral da colheita seja reduzida.

Observando o cenário sob uma ótica nutricional, o corpo humano demanda alguns níveis de micronutrientes para executar os processos normais do organismo. Assim, a deficiência de um ou mais micronutrientes, pode levar a problemas de saúde e até mesmo ao surgimento de doenças crônicas. Diversas carências de nutrientes já foram observadas na população norte-americana. Isso porque a maioria das pessoas nos Estados Unidos não têm o hábito de consumir as quantidades recomendadas de frutas e vegetais por dia.

Além disso, a análise das pesquisas do Exame Nacional de Saúde e Nutrição (NHANES) do país, sugere que cerca de 31% dos americanos correm o risco de desenvolver desnutrição de micronutrientes. Diversos fatores podem contribuir para a deficiência de minerais, inclusive padrões dietéticos e a prevalência de uma dieta ocidental, que é rica em alimentos processados e pobre em alimentos frescos, como vegetais. O declínio da densidade de nutrientes das safras de alimentos, apresenta o potencial de aumentar a desnutrição de micronutrientes em escala global.

A nutrição e a importância do solo

O solo é formado por matéria orgânica, bem como partículas de minerais e rochas, líquidos e gases. Elementos que servem de importante indicador para a saúde do solo, junto com sua capacidade de “respiração”, isto é, a medida de dióxido de carbono (CO²) liberado do solo a partir da decomposição da matéria orgânica por micróbios, das raízes das plantas e da fauna.

Este indicador aponta o nível de atividade microbioana deste solo, os nutrientes disponíveis nele para a absorção por parte das culturas e sua capacidade de sustentar o crescimento das plantas. As taxas essenciais de respiração do solo dependem de fatores como a quantidade e qualidade da matéria orgânica do solo, temperatura, salinidade, pH, circulação de ar e umidade. Desta forma, muito da sustentabilidade agrícola se mantém quando há uma biota de solo diversa, contribuindo tanto para safras mais produtivas, quanto alimentos mais ricos em nutrientes.

Um relatório do governo norte-americano, de 2016, sobre os solos do país, sugeriu que mudanças no uso da terra nos últimos 50 anos, contribuíram para a redução das funções do ecossistema. Quando houve a combinação de práticas agrícolas mais intensivas e a contaminação do solo, o potencial de redução da abundância microbioana reduziu, assim como a possibilidade de prejudicar outras funções, como a decomposição e retenção dos nutrientes.

Em 2017, um relatório da Agência Europeia do Meio Ambiente, apontou que os efeitos das mudanças climáticas foram observados em nível global e no solo europeu, com níveis de umidade reduzidos significativamente em algumas regiões e aumentando em outras, desde 1950. Estes fatores climáticos também podem impactar o nível e disponibilidade de nutrientes no solo, como nitrogênio, fósforo, potássio e ferro.

A consideração a partir destes estudos é de que o aquecimento das temperaturas do ar e  aumento da radiação solar, podem elevar as temperaturas do solo, o que resultaria em uma atividade microbioana mais elevada, assim como taxas de respiração do solo igualmente mais altas e limitações potenciais na disponibilidade de nutrientes do solo.

O valor nutricional das culturas alimentares

O solo é responsável pelo fornecimento de nutrientes que as plantas e os seres humanos demandam, o que cria um inegável vínculo entre a saúde do solo e a saúde humana. Por exemplo, o solo pode se tornar ácido por diversas razões, inclusive a colheita repetida de safras de alto rendimento. A deficiência de magnésio, por sua vez, afeta negativamente as condições do solo e a sustentabilidade na produção da safra. Estes aspectos que, por sua vez, impactam, potencialmente, a quantidade de magnésio disponível nas culturas resultantes do solo.

Uma meta-análise realizada em 2020, tendo como base 99 artigos com pesquisa de campo que estudaram os efeitos da fertilização com magnésio na produção agrícola, sugere que a suplementação com magnésio afetou diretamente os níveis de magnésio acumulados nos tecidos foliares da planta, com um aumento médio de 34,3%.

A pesquisa contínua aponta, ainda, que as safras cultivadas em solos com todos os principais nutrientes para as plantas, costumam ser mais produtivos e com culturas com maiores concentrações de nutrientes. Porém, se isso é verdade para todos os tipos de safras e quais fatores do solo e técnicas de manejo poderiam produzir safras mais densas de nutrientes, ainda são informações não tão bem esclarecidas.

As mudanças climáticas e a desnutrição

A mesma pesquisa apontou que o conteúdo de nutrientes das safras reduziu ao longo do tempo, possivelmente, em parte, devido a diversos fatores, como variedades de plantas cultivadas, práticas de manejo da terra e do solo e às mudanças climáticas. Uma meta-análise de 2014, que fez mais de 7,7 mil observações, inclusive mais de 2 mil em centros de enriquecimento de CO² no ar livre e que incluíram 130 espécies, sugeriu que os níveis mais elevados de CO² reduziram a concentração geral de 25 minerais em plantas, incluindo cálcio, potássio, zinco e ferro, em uma média de 8%.

Além disso, o aumento da exposição ao CO² aumentou a proporção de carboidratos para minerais nas plantas estudadas. Uma revisão de 2017 descobriu que o CO² em concentrações elevadas, potencialmente reduziria entre 3% a 11% o zinco e o ferro de grãos, cereais e leguminosas. Os minerais e o CO² elevados, também impactariam a concentração de proteína de diversos grãos, o que poderia afetar, de forma significativa, os países dependentes das safras de grãos como fontes de proteína na dieta.

O aumento das preocupações mundiais com fenômenos como o aquecimento global e a contínua desnutrição de micronutrientes em todo o mundo, coloca luz sobre os fatores climáticos e como eles poderiam afetar os nutrientes em importantes culturas alimentares. Organizações de saúde relatam casos de desnutrição por micronutrientes, incluindo iodo, ferro, folato, vitamina A e zinco, que continuam a ter consequências importantes na saúde de bilhões de pessoas em todo o mundo.

A desnutrição de micronutrientes é, ainda, associada a diversas deficiências fisiológicas, incluindo distúrbios metabólicos, função imunológica, endócrina e cognitiva reduzidas, ou, ainda, desenvolvimento físico atrasado ou inadequado. O magnésio, por exemplo, está presente em diversos alimentos agrícolas, desde verduras até grãos inteiros. Mesmo assim, este micronutriente essencial é sub-consumido nos EUA, onde estudos indicam que a baixa ingestão pode estar relacionada ao risco aumentado para diversas doenças crônicas.

O impacto da sustentabilidade agrícola nos alimentos

Elevados níveis de CO² aumentam, potencialmente, o rendimento de diversas safras de alimentos, por meio de suas taxas fotossintéticas. Todavia, o impacto na qualidade nutricional das safras é uma consideração importante no sentido das preocupações nutricionais com a desnutrição de micronutrientes. Uma meta-análise de 2018, que analisou 57 artigos e um total de mais de 1 mil observações, constatou que o eCO² aumentou as concentrações de açúcares, capacidade antioxidante, fenóis, flavonóides, ácido ascórbico e cálcio na parte comestível dos vegetais. Por outro lado, reduziu as concentrações de proteína, nitrato, magnésio, ferro e zinco conforme os percentuais observados:

– 9,2% de redução nas concentrações de magnésio;
– 18,1% de redução nas concentrações de zinco para vegetais de frutas e raízes, e de 10,7% em vegetais de caule;
31% de redução nas concentrações de ferro em vegetais com folhas, 19,2% em vegetais de frutas e 8,2% em vegetais de raiz.
Além disso, o eCO² elevado é um fato potencial para a redução de minerais e proteínas em gramíneras e leguminosas C que incluem grãos de cereais, como trigo, arroz, cevada e aveia. Uma meta-análise realizada em 2014, investigou 143 comparações de seis culturas alimentares cultivadas em ambiente e níveis aumentados de CO². Os experimentos foram conduzidos em sete locais experimentais diferentes e testaram as concentrações de nutrientes nas porções comestíveis de arroz, trigo, milho, soja, ervilhas e sorgo. Os resultados apontaram o seguinte:

– Níveis maiores de CO² estão relacionados à redução significativa nas concentrações de zinco e ferro em todas as gramíneas e leguminosas C.
– Em níveis mais elevados de CO², os grãos de trigo mostraram 9,3% menos zinco e 5,1% menos ferro.
– Em níveis mais altos de CO², as gramíneas C mostraram níveis menores de proteína, com uma redução de 6,3% nos grãos de trigo e uma redução de 7,8% nos grãos de arroz.

Culturas alimentares: orgânicas ou não orgânicas, eis a questão

Estudos longitudinais sugeriram resultados mais favoráveis à saúde e bem-estar humana, quando uma dieta orgânica é consumida em comparação a um padrão alimentar convencional. Por exemplo, uma dieta orgânica que inclui laticínios, ovos, carnes e plantas, pode aumentar significativamente a ingestão de ácidos graxos ômega-3 e reduzir o risco de doenças alérgicas e obesidade, além de reduzir a exposição a alimentos tratados com antibióticos a toxinas fúngicas e para metais tóxicos.

De maneira específica para o consumo de culturas alimentares, orgânicas versus convencionais, os resultados do estudo podem não ser conclusivos dadas as variáveis de confusão, como o estilo de vida em geral. Conforme uma revisão sistemática recente, poucos ensaios clínicos testaram melhorias diretas na saúde relacionadas ao consumo de alimentos orgânicos e, de forma mais frequente, foram indiretas, avaliando os resultados de saúde com base em diferentes na exposição a pesticidas.

Ainda que a redução dos resíduos de pesticidas entre as culturas orgânicas leve ao benefício para a saúde e uma menor exposição aos agrotóxicos, as diferenças na composição real as culturas orgânicas e convencionais, podem ser limitadas. Conforme revisões sistemáticas compiladas e meta-análises, os resultados apontam que, ainda que os níveis gerais de minerais e vitaminas nas plantas não sejam significativamente impactados pelo método de produção agrícola, níveis maiores de compostos polifenólicos em culturas de alimentos orgânicos, foram apresentados.

Muitos destes compostos são associados, frequentemente, à redução do risco de uma ampla gama de doenças crônicas. Uma revisão sistemática de 2014 e uma meta-análise de 343 publicaões revisadas por pares, descobriram que as concentrações de antioxidantes, como polifenóis, foram muito mais elevadas em culturas orgânicas e alimentos à base de culturas orgânicas. A análise, de forma específica, encontrou os seguintes produtos químicos e percentuais estimados:

Ácidos fenólicos: concentração 19% maior em plantações orgânicas;

Flavonones: concentração 69% maior em culturas orgânicas;
Estilbenos: concentração 28% maior em plantações orgânicas;
Flavones: concentração 26% maior em cultivos orgânicos;
Flavonóis: concentração 50% maior em safras orgânicas
Antocianinas: concentração 51% maior em cultivos orgânicos.

O que consideram as pesquisas

As investigações apresentam resultados convincentes sobre a flutuação dos níveis de nutrientes nas culturas alimentares. No âmbito da desnutrição de micronutrientes nos EUA e no mundo, tais resultados e constatações científicas são fundamentais para a prevenção de doenças crônicas e a promoção de uma saúde ideal para a população global. Diversas deficiências, variáveis e lacunas são evidentes na literatura de pesquisa, ao passo em que as comunidades científica e médica, tentam compreender totalmente a relação entre meio ambiente, agricultura, consumo de alimentos e saúde humana. Um artigo científico resumiu algumas preocupações contextuais, sugerindo que:

– Amostras arquivadas de solo que foram cultivadas em grande parte, mas manejadas com fertilizantes, não mostraram declínio na densidade mineral.
– Variedades de culturas, métodos de amostragem e análises laboratoriais e estatísticas mudaram ao longo dos anos e podem impactar os resultados dos estudos comparativos.
– Vegetais e frutas permanecem amplamente densos em nutrientes, a nutrição adequada é acessível através da ingestão das porções recomendadas e o aumento da produção de alimentos para uma população em crescimento supera os efeitos potenciais de diluição de nutrientes.

O impacto dos níveis de CO² em todos os micronutrientes essenciais, não está bem representado nas pesquisas, algumas revisões recentes sugerem, também, que os mecanismos relacionados ao clima para declínios notados na composição mineral da planta, não são bem compreendidos, assim como os fatores do solo ou as técnicas de manejo que produziria safras mais nutritivas de alimentos.

Além disso, ainda que existam benefícios relacionados ao CO² na produtividade das lavouras contra o impacto potencial na composição nutricional das culturas, há uma necessidade em traduzir essas conclusões em consequências diretas para a saúde humana, através de um debate contínuo.

As considerações a partir da medicina funcional

Entender a relação evolutiva entre fatores ambientais, safras de alimentos e saúde humana, amplia a consciência clínica para, em última análise, encaminhar pacientes a uma saúde e bem-estar melhorados. O declínio da densidade de nutrientes em algumas safras de alimentos, sobretudo no contexto de desnutrição de micronutrientes, é uma consideração clínica importante em vista da escassez de nutrientes já observada na população norte-americana e considerando relatório de que a maioria da população do país não consome a quantidade recomendada de frutas e legumes.

A análise sobre deficiência de micronutrientes ou risco de deficiência, é fundamental ao longo da ingestão clínica, a fim de determinar causas subjacentes de sintomas ou condições crônicas, abordando essas deficiências e seu potencial de melhorar ou solucionar muitos problemas de saúde. A avaliação da exposição potencial a agrotóxicos por meio de safras de alimentos é outro ponto a considerar. No modelo de medicina funcional, uma visão ampla de condições históricas e atuais de um paciente, incluindo sua ingestão nutricional e padrões alimentares, ajuda na determinação de intervenções adequadas a cada paciente, individualmente.

A desnutrição de micronutrientes pode ser prejudicial à saúde do paciente e tais deficiências podem não ser imediatamente óbvias. Por isso, ferramentas de avaliação como exame físico orientado para a nutrição, ajudam a identificar desequilíbrios ao realizar o exame físico por meio de lentes nutricionais. Assim, qualquer declínio de micronutrientes essenciais em sagras de alimentos deve ser considerada para a potencial prevenção de problemas de saúde, inclusive de doenças crônicas, assim como para a promoção da saúde ideal.

Fonte: The Institute for Functional Medicine (IFM)

 

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