Pesquisa aponta contaminação por metais pesados em peixes do Rio Doce

Artigo comprova, cientificamente, pela primeira vez, a contaminação por metais pesados em peixes do estuário do Rio Doce, no Espírito Santo.

 

Estudo foi o primeiro que trouxe resultado científico sobre peixes contaminados após o rompimento da barragem da mineradora Samarco em Mariana, Minas Gerais. O desastre que ocorreu em 2015, provocou o vazamento de, aproximadamente, 43 milhões de m³ de rejeitos de mineração. As análises mostram que, em agosto de 2017, peixes comestíveis coletados na Vila de Regência, no município de Linhares, no norte do estado, apresentavam níveis de arsênio, cádmio, cromo, cobre, mercúrio, manganês, chumbo, selênio e zinco acima do permitido para consumo humano.

Na mesma época, a concentração de cádmio, cromo, chumbo e zinco nos sedimentos do estuário era de dez a 350 vezes maior do que antes do desastre. O Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) colaborou com a pesquisa, que foi coordenada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e os resultados foram publicados na revista científica internacional Peer J – Life & Environment.

Desde a ocorrência do vazamento, a pesca é atividade proibida no Rio Doce e, considerando a situação analisada em 2017 e análise dos sedimentos do estuário (ambiente de transição entre o rio e o mar) coletados em 2018, os pesquisadores apontaram risco de contaminação crônica, reforçando a necessidade de monitoramento constante da região.

“O estudo detectou níveis muito altos de alguns metais e correlação com proteínas que indicam ocorrência de estresse oxidativo nos peixes. Esse resultado confirma o dano ambiental e aponta risco para a saúde humana. O biomonitoramento é importante e deve ser contínuo”, aponta Rachel Ann Hauser Davis, a bióloga e pesquisadora do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do IOC e uma das autoras do artigo.

“Observamos uma relação entre a contaminação dos sedimentos e dos peixes em 2017 e nossas análises mostram que, até agosto 2018, os sedimentos continuavam contaminados. Não é possível prever quanto tempo isso vai durar”, complementa o doutorando Fabrício Ângelo Gabriel, da UFES e primeiro autor do trabalho, que complementa dizendo que os rejeitos continuaram, de forma gradativa, chegando ao estuário tempos após o desastre.

“Quando há grande volume de chuva em Minas Gerais, a água traz a lama das margens do Rio Doce e a abertura de comportas de hidrelétricas libera os resíduos acumulados nos reservatórios. Devido a hidrodinâmica do estuário, nem todo o rejeito passa para o mar. Nesse ambiente, é onde fica a maior parte da contaminação dessa tragédia”, completa.

Coordenada pela UFES, com colaboração da USP, a análise de sedimentos coletados no estuário do Rio Doce em janeiro e agosto de 2018, mostrou a presença de metais abaixo dos níveis de 2017. Porém, o grau de contaminação ainda foi classificado como moderado a alto e as taxas eram superiores às registradas antes do desastre. Os resultados foram publicados no periódico Integrated Environmental Assessment and Management, em fevereiro deste ano. Enquanto amostras coletadas em fevereiro de 2019 e janeiro de 2020, ainda se encontram em análise.

Riscos para a saúde humana e ambiental

O estudo analisou cerca de 70 peixes de cinco espécies que eram consumidas e comercializadas na região antes do desastre. Níveis de metais superiores ao recomendado para alimentação por normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou de organismos internacionais, foram encontrados em animais de todas as espécies, incluindo nas variedades de bagre (Cathorops spixii e Genidens genidens), tainha (Mugil sp.) e carapeba (Diapterus rhombeus e Eugerres brasilianus).

A avaliação incluiu amostras de fígado e músculo dos animais, contemplando nove metais (arsênio, cádmio, cromo, cobre, mercúrio, manganês, chumbo, selênio e zinco). “Tudo que é ingerido passa pelo fígado e aquilo que o órgão não consegue metabolizar, se deposita no tecido muscular, que é consumido pelos seres humanos. Por isso, essas análises são importantes no biomonitoramento”, esclarece Rachel.

Quase 90% dos peixes avaliados apresentavam altos níveis de manganês, selênio e zinco no fígado. Dos bagres e tainhas, os nove metais foram identificados em quantidade tóxica no órgão em, pelo menos, um exemplar de cada espécie. Entre os carapebas, sete metais foram identificados no tecido hepático de D. rhombeus e seis, em E. brasilianus.

Os pesquisadores apontam que, embora os rejeitos de mineração contivessem, principalmente, resíduos de ferro, a lama arrastou para o estuário partículas de metais depositadas no fundo do Rio Doce. “Os metais chegaram junto com os rejeitos. O rejeito composto principalmente por óxido de ferro está associado a metais. No estuário, em função das condições locais do material de fundo, esses metais podem, a médio ou longo prazo, ser biodisponibilizados. A alta contaminação dos sedimentos se reflete nos animais. A situação dos bagres é particular porque são peixes demersais, que estão diretamente associados ao fundo do estuário e, portanto, têm contato com os sedimentos contaminados. Nestes animais, encontramos os maiores índices de contaminação”, comenta Fabrício.

Os autores alertam que a contaminação por metais pesados representa um risco para a saúde humana e do meio ambiente. Alguns metais, como selênio e zinco, são essenciais para o funcionamento dos organismos vivos, mas podem ser tóxicos em quantidades excessivas. Outros, como arsênio e mercúrio, podem causar danos mesmo em pequenas quantidades.

“Os metais causam estresse oxidativo nas células, levando à produção de radicais livres, que danificam o DNA. A contaminação está associada a efeitos neurotóxicos e ao risco de desenvolvimento de câncer, entre outras consequências”, aponta Rachel. “O estuário é um local de reprodução para muitas espécies de peixes, e a contaminação pode afetar o processo reprodutivo dos animais, prejudicando futuramente a produção pesqueira na região”, avalia Fabrício.

Fonte: Fiocruz

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