Alimentos que fazem parte do dia a dia do brasileiro, como frutas e hortaliças, podem ter agrotóxicos em excesso. 

Além de não serem facilmente detectadas nas cascas, algumas substâncias tóxicas não possuem sequer sabor, enquanto outras, podem penetrar no interior dos vegetais e frutas. Fato é que, aparente ou não, não se tem a real dimensão sobre os impactos dos pesticidas à saúde humana de quem consome os alimentos.

O tema é polêmico, por um lado, há quem defenda de que as substâncias podem prejudicar a saúde e que a população não possui informação suficiente, clara ou adequada sobre os verdadeiros riscos. Por outro lado, existem especialistas que defendem os agrotóxicos como necessários para a produção alimentar em grande escala, pois, segundo suas percepções, seria inviável alimentar a população mundial apenas com alimentos orgânicos.

Conforme Marcella Garcez, nutróloga e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), “O Brasil é uma das maiores potências no setor agropecuário do mundo e se encontra no topo quando o tema é a utilização de agrotóxicos. Seu uso está relacionado a fatores climáticos, pois o clima tropical na maior parte do seu território favorece o ciclo de pragras”.

Em um estudo publicado este ano pela Unearthed, organização de jornalismo independe, financiada pelo Greenpeace, em parceria com a ONG Public Eye, o Brasil aparece como o principal mercado de agrotóxicos “altamente perigosos”, que são classificados pela OMS como pesticidas “reconhecidos por apresentarem níveis particularmente altos de riscos agudos ou crônicos para a saúde ou o meio ambiente, de acordo com sistemas de classificação internacionalmente aceitos”.

Os agrotóxicos e os prejuízos à saúde

Falar sobre os riscos à saúde causados pelos agrotóxicos é um assunto complexo, primeiro por questões éticas. Isso porque não se pode realizar experimentos com humanos, assim, não se sabe qual seria – e se existe – uma quantidade segura para o consumo dessas substâncias. Assim, mesmo que as análises realizadas até o momento sejam observacionais, muitos fatores podem confundir os resultados, afinal, o corpo humano é exposto a diversos outros produtos que são potencialmente tóxicos, como fumaça de cigarro, por exemplo, ou a poluição.

Até os momentos, os dados mais concretos e evidentes são observados em trabalhadores que lidam diretamente com os agrotóxicos, mas pouco ainda se sabe sobre os impactos em quem consome esses alimentos. Para casos de exposição direta e de longo prazo, os estudos apontam o surgimento de problemas de saúde como: paralisias, lesões cerebrais e hepáticas, além de alguns tipos de câncer e alterações comportamentais. Em gestantes, podem levar ao abordo e malformação congênita, segundo Garcez.

Rafael Arantes, nutricionista representante do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), aponta que “é importante destacar que esses estudos batem muito na tecla de que os mecanismos por trás dessa associação ainda são desconhecidos”. “São estudos observacionais, mas que obviamente têm o rigor metodológico e têm cada vez mais apontado para esse risco a partir da exposição”, completa.

Existe fiscalização adequada?

A Anvisa é o órgão brasileiro responsável por determinar qual tipo de agrotóxico pode ser utilizado e em qual quantidade para cada alimento. Periodicamente, a agência publica a análise dos resíduos das substâncias tóxicas presentes em frutas e legumes. A última edição, divulgada em 2019, mostrou o uso de pesticidas entre 2017 e 2018.

O documento demonstra que existem resíduos de agrotóxicos em 51% das mais de 4,6 mil amostras avaliadas. Além disso, 23% delas tinham substâncias proibidas ou acima do volume permitido. “Há um conjunto de medidas no Brasil que estimulam o uso dos agrotóxicos, como a isenção fiscal e flexibilização das leis que facilitam a utilização em excesso. O monitoramento da Anvisa é fundamental para que a população saiba a quantidade dos agrotóxicos presentes nos alimentos e as irregularidades encontradas”, diz Arantes.

Quais alimentos possuem mais agrotóxicos?

O último monitoramento da Anvisa avaliou 14 tipos de vegetais, o que representa 30% da dieta dos brasileiros, sendo: abacaxi, alface, arroz, alho, batata-doce, beterraba, cenoura, chuchu, goiaba, laranja, manga, pimentão, tomate e uva. No total, foram analisados cerca de 270 agrotóxicos diferentes.

Dos alimentos analisados, concluiu-se que não ofereciam riscos imediatos à população, porém, a laranja ganhou destaque na lista por ser bastante consumida e, por esse motivo, poderia causar intoxicação. Das 382 amostras da fruta, 48 apresentavam agrotóxicos não autorizados e cinco amostras com níveis acima do permitido. Veja mais algumas análises:

Pimentão: das 326 amostras analisadas, foram detectados 69 agrotóxicos dentre os 195 pesquisados. Além disso, 263 apresentavam resíduos de agrotóxicos não autorizados para a cultura do pimentão e 79 amostras apresentaram resíduos acima do permitido.

Goiaba: das 283 amostras analisadas, foram detectados 43 agrotóxicos dentre os 241 pesquisados. Além disso, 115 apresentavam resíduos de agrotóxicos não autorizados para a cultura da goiaba e 18 acima do permitido.

Cenoura: das 353 amostras analisadas, foram detectados 30 agrotóxicos dentre os 153 pesquisados. Além disso, 139 apresentavam resíduos de agrotóxicos não autorizados para a cultura da cenoura e três acima do permitido.

Tomate: das 316 amostras analisadas, foram detectados 45 agrotóxicos dentre os 151 pesquisados. Além disso, 106 apresentavam resíduos de agrotóxicos não autorizados para a cultura do tomate e oito acima do permitido.

Alho: das 365 amostras analisadas, foram detectados 27 agrotóxicos dentre os 240 pesquisados. Além disso, 16 apresentavam resíduos de agrotóxicos não autorizados para a cultura do alho e uma amostra acima do permitido.

Veja os resultados completos aqui.

Como reduzir os riscos?

Pablo Georgio de Souza, engenheiro florestal e professor do curso de Agronomia da PUCPR explica que “É importante valorizar produtos com notas fiscais que identifiquem os responsáveis pela sua produção. Ter a certificação de boas práticas de produção obrigatoriamente possibilita a rastreabilidade de toda sua cadeia produtiva”.

Além disso, para reduzir alguns possíveis riscos de intoxicação por agrotóxicos, diversas estratégias podem contribuir e servir de orientação aos seus pacientes para reduzir o consumo de agrotóxicos:

– Higienizar bem os alimentos
– Optar por vegetais da estação
– Desconfiar de alimentos com aparência “perfeita”, muito brilhantes, sem manchas ou que duram muito

Vale, ainda, investir em alimentos orgânicos, que são produzidos sem o uso de aditivos químicos, como agrotóxicos e fertilizantes. “Comprar orgânicos é uma forma de garantir que um alimento foi realmente produzido sem agrotóxicos. Há diversas feiras que comercializam os produtos orgânicos, geralmente disponíveis em grandes centros. É importante que ocorra um investimento em um sistema alimentar saudável e sustentável”, finaliza Arantes.

Fonte: Uol

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