Desde o início da pandemia, pesquisadores estudavam a relação entre o tecido adiposo e a piora do quadro de COVID-19. Ryan e Caplice (2020), em uma revisão, já relacionavam este tecido como um reservatório para a propagação do novo coronavírus e amplificação da resposta inflamatória, com larga secreção de citocinas pró-infamatórias, conhecida como tempestade de citocinas, que poderiam gerar agravamento da doença. Essa hipótese foi levantada devido ao fato de pacientes obesos internados com o diagnóstico de COVID-19, tinham um risco aumentado de desenvolver os piores desfechos da doença (acesse o resumo do artigo aqui). O mesmo foi observado por Zheng et al. (2020), como você pode ver no resumo do artigo também publicado aqui na Revista Nutri Online.

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), sob a coordenação da professora do Departamento de Cirurgia, Marilia Cerqueira Leite Seelaender, com colaboração de Peter Ratcliffe, professor da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e um dos premiados com o Nobel de Medicina em 2019, estão investigando essas hipóteses levantadas por outros estudiosos.

O grupo da FM-USP tem analisado amostras de tecido adiposo obtidas na autópsia de pessoas que morreram devido à COVID-19 e de pacientes infectados com o SARS-CoV-2 que precisaram ser submetidos a cirurgias de emergência (sem relação específica com a infecção), no Hospital Universitário da USP. Os resultados preliminares da pesquisa confirmam que o SARS-CoV-2 pode ser encontrado nos adipócitos, sendo que a membrana externa destas células expressa em grande quantidade a enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2), a qual é a forma utilizada pelo novo coronavírus para infectar as células.

Ao entrar no adipócito, o novo coronavírus consegue permanecer e se replicar dentro dele. A pesquisadora Marilia Cerqueira Leite Seelaender ainda salienta o fato de que o tecido adiposo visceral expressa muito mais ECA-2, além de ser mais inflamatório, do que o tecido adiposo subcutâneo, o que torna a obesidade visceral um fator ainda mais agravante para a piora da COVID-19.

Além disso, no tecido adiposo de pessoas infectadas, parece haver uma alteração dos exossomos, que são pequenas vesículas que a célula libera na circulação e que podem conter moléculas sinalizadoras de diversos tipos, sendo um dos mecanismos que gera troca de informação entre os diferentes tecidos do corpo, visando adaptar o organismo a mudanças no ambiente, e assim, uma das hipóteses investigadas pela pesquisa é se os adipócitos de indivíduos contaminados pelo novo coronavírus aumenta a liberação de exossomos com maior conteúdo de fatores inflamatórios. A pesquisa, até o momento, confirmou que há um maior número de exossomos liberados, mas os pesquisadores ainda irão investigar o conteúdo destes e as vias ativadas.

Outro ponto investigado pelos pesquisadores é se a COVID-19 gera hipóxia nos adipócitos, ou seja, se reduz a quantidade de oxigênio disponível, a qual já é desencadeada pela inflamação induzida pelo aumento da quantidade de gordura corporal.

É importante você saber:

Um estudo conduzido pelo grupo coordenado pela professora Seelaender e publicado na revista Advances in Nutrition (2020) (veja o artigo na íntegra aqui) aborda sobre o impacto do estado nutricional no desfecho da COVID-19 e demonstra que a composição corporal, especialmente baixa massa magra e alta adiposidade, relaciona-se com a piora do desfecho de diversas doenças, inclusive, na COVID-19.

 

REFERÊNCIAS:

RYAN, P. M.; CAPLICE, N.M. Is Adipose Tissue a Reservoir for Viral Spread, Immune Activation, and Cytokine Amplification in Coronavirus Disease 2019? Obesity, v.28, n.7, p.1191-1194, 2020.

ZHENG, K.I. et al. Letter to the Editor: Obesity as a risk factor for greater severity of COVID-19 in patients with metabolic associated fatty liver disease. Metabolism, v.108, 2020.

https://namidia.fapesp.br/pesquisa-nacional-relaciona-gordura-com-agravamento-de-covid-19/253693

https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/11/03/usp-investiga-se-celulas-de-gordura-sao-a-fonte-dos-fatores-que-agravam-covid-19

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