Na última semana, o Guia Alimentar para a População Brasileira, tornou-se alvo de críticas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que alegou que o documento era “um dos piores”. Com nota enviada ao Ministério da Saúde, o MAPA solicitou a reformulação do documento, orientando a retirada da chamada classificação Nova, a qual agrupa os alimentos de acordo com o seu grau de processamento, já que esta limita as escolhas alimentares da população. Além disso, a nota também levanta a questão sobre o Guia estimular a população a ler os rótulos, sob alegação de que o uso de ingredientes na indústria alimentícia é feito com base em normas específicas.

A grande questão a ser levantada é: como o Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado em 2014, sendo apontado como inovador e exemplo em nível mundial, e reconhecido como um dos melhores do mundo, pode ter sido alvo de tantas críticas do MAPA? Para refletir, vale a pena entender sobre alguns pontos importantes!

Impacto da produção de alimentos ultraprocessados na economia brasileira

Segundo a ABIA (Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos), o setor de produção de alimentos e bebidas é o maior do país, representando 9,6% do PIB do Brasil. Segundo o relatório anual da ABIA, referente ao ano de 2019, as vendas internas nessa área movimentou cerca de 373 bilhões de reais, além do alto volume de produtos exportados, sendo o Brasil considerado o 2° maior exportador de alimentos industrializados do mundo.

Dentre os produtos mais produzidos e exportados estão as carnes bovina, de aves e suína, açúcar e bombons e doces. Assim, vale a reflexão: as recomendações do Guia, levando em consideração a classificação Nova, não poderiam se chocar aos interesses da indústria alimentícia brasileira e de todos os setores relacionados a ela?

O brasileiro sabe ler rótulos?

Um outro ponto a ser levado em consideração é a questão da leitura de rótulos, a qual foi indicada pelo MAPA, para que a população faça a sua escolha. Mas, há um detalhe: a atual forma de rotulagem nutricional padrão do Brasil não é considerada de fácil entendimento pelos brasileiros, que possuem dificuldade em entender os nomes nas listas de ingredientes ou a informação nutricional, principalmente em relação à porção a ser consumida.

Recentemente, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) vem propondo a mudança dos rótulos, para facilitar a compreensão, no modelo de semáforo, já adotado por diversos países, porém ainda está em processo de votação. Assim, enquanto a nova padronização de rotulagem não chega, será que os brasileiros podem fazer boas escolhas, apenas vendo o rótulo, mas sem o completo entendimento do que está escrito?

O que a ciência diz sobre o consumo de ultraprocessados?

Vários estudos utilizam a classificação de alimentos ultraprocessados para avaliar o status de saúde dos indivíduos. Askari at al. (2020) conduziram uma revisão sistemática e meta-análise de estudo observacionais, concluindo que há uma associação positiva entre o consumo de alimentos ultraprocessados e o excesso de peso, assim como Pagliai et al. (2020), também em uma revisão sistemática e meta-análise, concluíram que um alto consumo desses produtos industrializados correlacionou-se com um pior risco cardiovascular, maior risco para doenças cardiovasculares, doenças cerebrais, depressão e todas as causas de mortalidade.

Será que as críticas ao Guia Alimentar brasileiros são pautadas na visão de promover benefícios para a população ou para manter interesses econômicos alinhados?

REFERÊNCIAS:

ABIA. Números do Setor. Disponível em: <https://www.abia.org.br/numeros-setor> Acesso em 22 set. 2020.

ABIA. Relatório Anual. Disponível em:  <https://www.abia.org.br/downloads/relatorioAnual_2020.pdf> Acesso em 22 set. 2020.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui