O documento que confirmou esse atributo ao Guia Alimentar para a População Brasileira foi considerado o melhor ao relacionar alimentação e sustentabilidade, além de priorizar alimentos in natura.

O Guia Alimentar para a População Brasileira é um documento do Ministério da Saúde, elaborado em 2014, que foi considerado o mais abrangente em relação à sustentabilidade em um estudo realizado, em 2019, por pesquisadoras de três universidades dos EUA. O estudo fez um comparativo de 32 parâmetros e analisou mais 11 guias alimentares de países como Austrália, Reino Unido e Estados Unidos.

A pesquisa utilizou um conceito amplo de sustentabilidade, que considera não somente os impactos ambientais da produção e consumo de alimentos, mas aspectos econômicos, sociais, culturais e de saúde. Os 12 guias foram avaliados com base nesses parâmetros e a análise atribuiu uma “nota” percentual para cada um deles.

O guia brasileiro recebeu a maior nota, com 74% e, das quatro dimensões estabelecidas pelo estudo – ecológica, econômica, de saúde humana e sociocultural e política – o guia nacional não recebeu nota máxima apenas na categoria econômica.

Alimentos in natura para melhorar a qualidade de vida da população

Além do quesito atrelado à sustentabilidade, um artigo de 2015, publicado no portal Vox, fez duras críticas ao então recém-estabelecido guia alimentar norte-americano, comparando-o e enaltecendo a qualidade do guia alimentar brasileiro. Sobretudo no que diz respeito à inserção de alimentos frescos e a alimentação no contexto familiar e social.

Conforme o artigo, a abordagem dos EUA é um tanto punitiva em relação à comida, reduzindo-a às suas parcelas nutritivas e relacionando-a à obesidade. O que faz com que os alimentos sejam retirados do contexto familiar e social e levados ao contexto do laboratório ou clínica. E enfatiza que o Brasil, por outro lado, promove uma diretriz nacional não concentrada em nutrientes, calorias ou perda de peso, mas concentra-se nas refeições, incentivando os cidadãos a cozinhar alimentos inteiros em casa e a usar a crítica para lidar com as práticas de marketing atraentes da grande indústria.

A alimentação nutritiva x alimentação punitiva

O artigo da Vox continua a comparação entre a alimentação punitiva estabelecida no relatório de 600 páginas dos EUA para direcionar os hábitos alimentares de sua população e ressalta que, em apenas 143 páginas, o Ministério da Saúde brasileiro conseguiu traçar “o que pode ser o guia alimentar mais inteligente do mundo”, como menciona o artigo.

Algo disso pode se relacionar ao fato de que o Brasil só obteve um sistema de saúde universal ao final da década de 1980, o que fez com que o país tivesse oportunidade para aprender com os erros cometidos por muitas outras nações industrializadas. O que leva o texto a enaltecer também o sistema de saúde pública brasileiro, que conta com equipes de saúde da família em muitas das áreas mais remotas do país e que, à época de lançamento da publicação, em 2014, alcançava as metas de desenvolvimento do milênio da ONU, de forma precoce, através da drástica redução da mortalidade infantil por meio de programas que priorizavam a saúde da população, sobretudo a mais carente.

Pedra no sapato da indústria?

Nos meses que antecederam a publicação do guia alimentar, lá em 2014, representantes da indústria de alimentos empreenderam grandes esforços para barrar o documento. A crítica central foi voltada, à época, ao segundo capítulo, que traz uma classificação desenvolvida pelo médico Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, para dividir os alimentos por grau e propósito de processamento.

Aparentemente, o guia continua sendo um incômodo para a indústria, que não perde a chance de tecer críticas e questionar sua validade, na tentativa de desacreditar o documento. As tentativas chegam até a questionar a presença da sustentabilidade dentro do documento, indo de encontro aos estudos comparativos com relatórios de outros países, como apresentado no início deste texto.

Prova disso foi a frase dita por Fernanda Martins, gerente sênior de saúde e nutrição para a América Latina da Unilever, a uma plateia de nutricionistas e estudantes de nutrição no congresso da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), em 2019, “Não sei se alguém aqui já teve a curiosidade de ler o guia brasileiro com esse olhar, mas ele não traz de maneira explícita essa questão da sustentabilidade”.

O Guia Alimentar para a População Brasileira está quase completando seis anos de existência, um documento que, embora recente, conquistou seu prestígio dentro e fora do Brasil, mas continua sendo motivo de discussões e gerando incômodo à indústria.

Fonte: Vox/ O joio e o trigo

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