Cadeia produtiva da espécie favorita de peixe utilizado nos restaurantes de sushi em todo o Brasil, pode comprometer os benefícios nutricionais.

De norte a sul, o Brasil possui cidades banhadas pelo mar, rios e lagos o que, teoricamente, faria do país uma região autossuficiente no quesito pesca. Mas, não é incomum que grande parte dos peixes consumidos no país, especialmente das espécies salmão e tilápia, sejam fruto de criadouros.

O salmão, porém, ganha o foco nesse debate, pois é um dos peixes mais consumidos no país, mesmo não seja o peixe típico de regiões como Manaus, Fortaleza ou Florianópolis, que são berços nativos de espécies como tucunaré, pargo e tainha, respectivamente.

Famoso por seus benefícios à saúde, o salmão fruto da pesca marítima é rico em ômega-3, gordura fundamental para a homeostase do corpo como um todo , mas com destaque para a saúde cardiovascular, principalmente por modular os níveis séricos de triglicerídeos e atuar como um potente anti-inflamatório e antioxidante, melhorando, inclusive, a fluidificação do sangue. O ômega-3 também é fundamental para a saúde neurológica, atuando na estrutura dos neurônios e na comunicação entre estes, sendo também protetor contra desordens no sistema nervoso central, como ansiedade, depressão e Alzheimer.

Qual é o problema do salmão, então?

O caso é que grande parte do salmão consumido no Brasil não é capturado no mar, sua abundante disponibilidade para o alto consumo vem de grandes fazendas marinhas, a maior parte delas localizada no Chile. Esse processo de produção faz com que o peixe não seja saudável.

Conforme Carlos Monteiro, professor do departamento de nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, o salmão de criação poderia ser catalogado como alimento ultraprocessado, mesma categoria em que se enquadram alimentos conhecidos por seu baixo valor nutricional, como biscoitos recheados, salgadinhos e salsicha.

Monteiro coordenou a elaboração do Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014 pelo Ministério da Saúde e comentou que: “Quando elaboramos o Guia, cogitamos incluir o salmão e outros animais de criação nos ultraprocessados”. O motivo para isso é o fato de que os animais de criação passam toda a vida alimentando-se de ração que, por fim, é um alimento ultraprocessado.

Contudo, o professor comenta ter desistido da polêmica classificação, pois ela poderia gerar confusão para o consumidor que, em grande parte, não sabe de onde vem o peixe que consome e, por isso, não possui esse tipo de informação.

Benefícios anulados

Desta forma, a dieta dos animais à base de ração, poderia anular os potenciais benefícios da carne do salmão, pois, conforme Carlos Monteiro “A ômega 3 vem de algas que o peixe come na natureza”. O que significa que peixes alimentados com ração que, geralmente é à base de soja ou milho, a presença do ômega-3 seria suplantada pela gordura do ômega-6 que, em doses moderadas não é prejudicial, mas não possui todos os benefícios associados à anterior. Isso porque existe uma razão ideal entre ômega-6 e ômega-3, já que essas gorduras competem pelas mesmas enzimas durante o seu metabolismo. Assim, uma maior ingestão de ômega-6, como já acontece no padrão alimentar ocidental, prejudica os processos metabólicos do ômega-3, reduzindo o papel seu biológico. Atualmente, a mudança de hábitos alimentares leva à uma razão de 20:1 (ômega-6 : ômega-3, respectivamente), sendo a literatura científica aborda uma proporção saudável de cerca de 2:1 ou até 5:1.

Além disso, existe ainda o agravante dos remédios que são oferecidos, em grande quantidade aos peixes sujeitos a doenças nos pequenos cercados superpovoados onde nascem e vivem. Sem contar o impacto ambiental das fazendas marinhas como poluidoras dos oceanos.

Fonte: Folha S. Paulo

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