A discussão foi conduzida pelo Instituto PENSI e teve o apoio da Associação Brasileira para o Estado da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO).

Além da ABESO, o evento contou com outras sociedades médicas e com a participação de especialistas nacionais e internacionais da Espanha e Portugal, países cujo distanciamento social devido à pandemia pela Covid-19 já começou a ser flexibilizado, dada a redução da curva de transmissão. Contudo, o questionamento que circulou na conversa foi sobre se o período de confinamento foi o suficiente para modificar o comportamento alimentar das famílias, positiva ou negativamente, o que ainda é incerto.

O coordenador do webinar, o nutrólogo Mauro Fisberg, professor da Universidade Federal de São Paulo, observa que algumas mudanças que ocorreram durante o período de isolamento social, tanto no Brasil quanto em outros países, foram positivas, pois “Muita gente começou a cozinhar; as famílias planejaram o cardápio como nós, profissionais de saúde preocupados com a obesidade, sempre preconizamos; as crianças participaram das atividades na cozinha e, em alguns casos, o esquema de home-office dos pais permitiu que todos fizessem refeições juntos”.

Por outro lado, há também uma suspeita de que, durante o período de quarentena, principalmente as crianças, ingeriram mais doces e fast-food, o que, segundo Fisberg já seria o suficiente para promover um aumento considerável de peso.

O caso espanhol

Luis Moreno Aznar, professor da Universidade de Zaragoza, na Espanha, foi um dos convidados do webinar e mostrou sua preocupação em relação à possibilidade de aumento do consumo de alimentos processados de alta densidade energética no país. Preocupação essa que foi de encontro a dados que ele mesmo trouxe para a discussão.

Como o de um estudo publicado na Revista Española de Nutrición Comunitaria, com cerca 1 mil indivíduos que mostrou que 72% estão ingerindo mais frutas, 25% mais ovos, 23% mais legumes e 20% mais peixes o que, em tese, significaria que as crianças também estariam adotando essa dieta.

Mesmo com informações desse e outros estudos, o professor justificou sua postura cética dizendo que: “Perto de 78% dos respondentes tinham nível universitário e isso decididamente não é representativo da Espanha”. Fisberg explica que pessoas mais favorecidas economicamente podem ter melhorado seu padrão alimentar, enquanto boa parte da população mais vulnerável, pode ter consumido mais alimentos pobres nutricionalmente.

O caso português

Já em Portugal, 47% das pessoas consumiram mais bolos, pasteis de nata e produtos relacionados, conforme o convidado do evento Sergio Cunha Velho, do Hospital Pediátrico de Coimbra. A informação foi retirada de um questionário aplicado a mais de 1,3 mil portugueses e, para o nutricionista, é compreensível o aumento do apetite por doces:

“A pandemia aumentou o estresse e ele, por sua vez, notoriamente está associado a um maior desejo por açúcar”.

Por outro lado, o país experimentou uma queda de 21% nas bebidas açucaradas durante a pandemia, contudo, Cunha lembrou que tais produtos são altamente taxados no país e, por isso, o valor é muito elevado e a queda no consumo pode ser resultante do fato de as pessoas terem ficado receosas diante de uma possível crise econômica.

Em Portugal, os primeiros estudos realizados demonstraram que 25% da população ganharam peso durante o isolamento social, inclusive crianças e adolescentes, que tiveram um aumento do IMC durante o período. “Provavelmente, o fator mais importante nessa história não foi a alimentação, ligeiramente mais equilibrada do que antes, mas a diminuição na atividade física mesmo”, explica Cunha.

O cenário brasileiro

Dados do Brasil foram apresentados pela doutora em ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, Dra. Michele Alessandra Castro, que apontou que o cenário antes da pandemia já se mostrava preocupante, pois “38% das crianças entre 5 e 9 anos que frequentam a rede municipal paulistana estavam acima do peso quando a covid-19 chegou no país”.

Apontou, ainda, que, embora o confinamento tenha sido praticado por apenas 55% da população de São Paulo, em seu maior índice, nas camadas populacionais mais vulneráveis, ocorreu uma importante queda na qualidade nutricional das refeições de crianças e adolescentes, já que muitos deixaram de almoçar e fazer o lanche na escola.

Para finalizar o assunto, Castro prevê que “O poder público precisa fazer alguma coisa, como estimular a oferta de serviços de alimentação saudável a baixo preço, e incentivar doações de alimentos de boa qualidade nutricional também”, sugeriu. “Caso contrário, podemos agravar demais uma situação que já era ruim antes. Ainda mais pensando que, sem aulas, esses jovens também pararam de fazer Educação Física, assim como, confinados em casa, deixaram de usar os parques e outros espaços públicos. Sem dúvida, esse sedentarismo terá um forte impacto negativo nos números da obesidade infantil”.

Fonte: ABESO

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