Além da anamnese e da antropometria e/ou bioimpedância, a solicitação e a interpretação dos exames bioquímicos são fundamentais na prática da nutrição estética, sendo aliadas para a avaliação e a intervenção nutricional, já que a partir dessa análise que são identificadas deficiências nutricionais, muitas vezes se expressando como desordens estéticas.

A acne vulgaris, é uma das doenças de pele mais comuns, afetando principalmente adolescentes – cerca de 85% desse público sofre com essa dermatose, e também, devido ao estilo de vida atual, tem sua incidência aumentada no público adulto feminino.

Ela se manifesta na forma de pápulas, pústulas, nódulos e cistos nas unidades pilossebáceas, principalmente, do rosto, do tórax e das costas. A acne tem causa multifatorial e basicamente acontece devido ao aumento exacerbado da produção de sebo (hiperativação da enzima 5-α-redutase), à cornificação anormal do ducto folicular sebáceo, à colonização do ducto intrafolicular por Propionibacterium acnes e à inflamação. Assim, para identificar a causa principal no desbalanço desses aspectos citados, os exames a serem solicitados devem levar em consideração os diferentes fatores associados ao seu desenvolvimento.

Confira, abaixo, os principais exames bioquímicos que você deve incluir na sua prática clínica toda vez que receber pacientes com quadro acneico, independente do grau:

Glicemia de jejum, insulina de jejum e HOMA-IR: três parâmetros importantes para avaliar se a causa da acne está associado a um padrão alimentar com alta carga e índice glicêmicos, ou se, no caso das mulheres, há possibilidade de haver uma resistência insulínica associada à Síndrome do Ovário Policístico (SOP).

Zinco sérico e zinco eritrocitário: a literatura científica indica que há uma alta prevalência de redução sérica de zinco em pacientes com acne e isso pode estar associado ao fato deste mineral atuar no adequado funcionamento da insulina, na modulação do estresse oxidativo e inflamação e inibindo a enzima 5-α-redutase. O padrão ouro para avaliar é o eritrocitário, mas, como não são todos os planos de saúde que cobrem este exame e nem todos os pacientes irão ter condições financeiras para realizar de forma particular, pode-se utilizar a dosagem sérica deste mineral, associada ao exame físico e o questionários de sinais e sintomas.

Selênio sérico: este mineral atua contra o estresse oxidativo e sua deficiência pode acarretar desenvolvimento da acne. Razavi et al. (2016) demonstraram que a suplementação de selênio, em mulheres com SOP, melhorou as concentrações séricas de proteína C reativa ultrassensível (PCR-US), do DHEA e do ácido metilmalônico (associado ao estresse oxidativo).

25-OH-vitamina D sérica: sua deficiência pode estar relacionada com a fisiopatologia da acne, como demonstrado por Lim et al (2016) em um estudo randomizado combinado com estudo de caso e controle, em que havia uma maior prevalência de deficiência de vitamina D em pacientes com acne, além das suas concentrações séricas serem inversamente proporcionais à gravidade da doença.

PCR-US: uma vez que a acne é de cunho inflamatório crônico, a avaliação da PCR-US é um marcador desta inflamação. Mesmo que não seja específico para esta doença, auxilia no acompanhamento da evolução da conduta prescrita.

Exames hormonais (SHBG, LH, FSH, testosterona total, testosterona livre, DHEA-S, DHEA e androstenediona): são os principais hormônios envolvidos no processo acneico. Estudos demonstram que há uma maior prevalência de hiperandrogenismo com alta elevação de DHEA em mulheres com acne, podendo estar associada ou não com SOP, uma vez que, nesta síndrome, há um aumento dos níveis de hormônios androgênicos.

Metabolismo lipídico (colesterol total, LDL-c, HDL-c, triglicérides, ApoA, ApoB): a hipercolesterolemia e a hipertrigliceridemia podem ser estar associadas à SOP. Por isso, ao solicitar estes exames, eles podem auxiliar na investigação da causa da acne.

Os exames bioquímicos devem ser solicitados e devidamente analisados e, caso haja suspeita da presença de alguma doença, o encaminhamento ao médico especializado deve ser feito. Dessa forma, irá proporcionar um tratamento efetivo e integrado do paciente, gerando resultados em longo prazo que beneficiem sua autoestima, sua qualidade de vida e seu bem-estar.

Fonte: E4 Nutrition

REFERÊNCIAS

SIMAS, L.A.W.; WOLPE, R.E. Manual de Atendimento em Nutrição Estética. Curitiba: Editora Autores Paranaenses, 2016.

PUJOL, A. P. (Org.). Nutrição Aplicada à Estética. Rio de Janeiro: Rubio, 2011.

BURRIS, J. et al. A Low Glycemic Index and Glycemic Load Diet Decreases Insulin-like Growth Factor-1 Among Adults With Moderate and Severe Acne: A Short-Duration, 2-Week Randomized Controlled Trial. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 118, n. 10, p. 1874-1885, 2018.

UYSAL, G. et al. Is Acne a Sign of Androgen Excess Disorder or Not? European Journal of Obstetrics, Gynecology and Reproductive Biology, v. 211, p. 21-25, 2017.

KIM, K. et al. A Comparative Study of Biological and Metabolic Biomarkers Between Healthy Individuals and Patients With Acne Vulgaris: A Cross-Sectional Study Protocol. Medicine, v. 96, n. 45, 2017.

RAZAVI, M. et al. Selenium Supplementation and the Effects on Reproductive Outcomes, Biomarkers of Inflammation, and Oxidative Stress in Women With Polycystic Ovary Syndrome. Hormone and Metabolic reserach, v. 48, n. 3, p. 185-190, 2016.

LIM, S-K. et al. Comparison of Vitamin D Levels in Patients With and Without Acne: A Case-Control Study Combined With a Randomized Controlled Trial. PLoS One, v. 11, n. 8, 2016.

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