Associação entre o status regional de selênio e seu efeito na repercussão de casos de COVID-19 na China

Burlap sack with Brazil nuts spilled on rustic wooden table

Autores: Zhang J., Taylor E.W., Bennett K., Saad R., Rayman M.P.
Revista: The American Journal of Clinical Nutrition

Potencialmente relevante para o recente aparecimento da COVID-19 na China é o fato de que existe uma alta prevalência de deficiência de selênio do nordeste ao sudoeste do país, sendo que a China possui indivíduos com o menor e o maior status de selênio no mundo. Um conjunto de estudos publicados pelo laboratório Beck, nos anos 90, mostrou que a deficiência de selênio no hospedeiro aumentou a virulência de vírus RNA, como o coxsackievirus B3 e influenza A. Possivelmente pelo fato de que a deficiência de selênio impede que haja a produção suficiente de selenoproteínas, com efeito antioxidante, para a produção do hospedeiro e assim, pode haver mutação do vírus para a forma mais virulenta, causando agravamento da patologia.

Essas descobertas lançam luz em uma doença humana causada por deficiência de selênio, uma cardiomiopatia conhecida como doença de Keshan, em homenagem à área no nordeste da China onde era endêmica. A doença apresentou variação sazonal, sugerindo um cofator viral que foi posteriormente identificado como coxsackievirus B3. Quando a população foi suplementada com selênio, a incidência da doença de Keshan diminuiu drasticamente. Benefícios clínicos significativos após a suplementação de selênio também teve efeito demonstrado em outras infecções virais, incluindo o HIV-1 (há uma correlação negativa estabelecida entre selênio e mortalidade), no câncer de fígado associado à hepatite B e em pacientes com “febre hemorrágica epidêmica”, a qual foi tratada com sucesso por selenito de sódio, proporcionando uma redução geral de 80% na mortalidade.

Assim, o selênio parece relevante em relação a diversos vírus, via potenciais efeitos imunomoduladores que são consistentes com vários papéis essenciais deste mineral no sistema imunológico, além de sua capacidade de influenciar na mutação viral e a evolução da doença. Estes e outros estudos levou à suposição que o status de selênio estava associado aos efeitos da COVID-19 na China.

Neste estudo retrospectivo de base populacional, os autores coletaram dados em tempo real através do site Baidu, um site não governamental que fornece atualizações diárias dos relatórios das comissões de saúde de cada província, município ou cidade, com base em casos confirmados pela COVID-19, em números de curados e óbitos. As taxas de cura e de mortalidade foram definidas como porcentagem de pacientes curados ou que morreram, respectivamente, de infecção por SARS-CoV-2. Eles rastrearam o surto desde 14 de fevereiro e escolheram dados de 18 de fevereiro como progresso instantâneo do surto até aquela data. Foram incluídas províncias ou municípios com mais de 200 casos e cidades com mais de 40 casos. Os maiores conjuntos de dados disponíveis sobre o status de selênio na China são em relação à concentração de selênio capilar que, em estudo anterior, mostrou-se altamente correlacionado com o consumo de selênio em diferentes distritos chineses. As taxas de cura e de mortalidade foram comparadas usando o teste de comparação de 2 proporções Stata (StataCorp 2019 Stata Statistical Software: Release 16). Associações entre a taxa de cura e concentração média de selênio capilar foram analisados ​​por modelos de regressão linear ponderada, ponderados pelo número de casos. 

Os resultados encontrados pelos pesquisadores mostram associação entre as taxas de cura para COVID-19 relatadas e o status de selênio. Esses dados são consistentes com a evidência de efeitos antivirais do selênio em estudos anteriores. De fato, múltiplos mecanismos envolvendo o mineral e a produção de selenoproteínas podem influenciar a patogenicidade viral, como as glutationas peroxidases dependentes de selênio codificadas pela presença de vírus. Tais mecanismos virais podem contribuir para a geração de estresse oxidativo associado a infecções por vírus RNA, aumento da replicação viral, sendo observada uma maior patogenicidade e/ou mortalidade por deficiência de selênio para o SARS-CoV-2.

Por ser um estudo ecológico, ele possui algumas limitações, como o uso de base de dados populacional de 011, que pode estar desatualizada. Além disso, não houve possibilidade de captar dados importantes, que também tem associação com o curso da doença, como idade e comorbidades (diabetes, hipertensão arterial e obesidade, por exemplo). Mas, apesar dessas limitações, o estudo levanta a importância do tema para mais pesquisas, dada a forte correlação, em outros estudos, da deficiência de selênio e a patogenicidade de outros vírus RNA.

CONFLITO DE INTERESSE
Os autores relataram não receberem financiamento para este estudo. Os autores relatam não terem conflitos de interesse.

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