Problemas na manipulação de animais utilizados para a alimentação são fator comum na história das maiores epidemias mundiais e, para evitar pandemias como o coronavírus no futuro é necessário refletir sobre a cadeia alimentar.

Na década de 1990, no Reino Unido, após ingerir carne bovina, algumas pessoas apresentaram sintomas de uma doença neurodegenerativa, conhecida como “o mal da vaca louca” – ou a doença de Creutzfeldt-Jakob – uma encefalopatia que atinge o gado doméstico. Em 2005, no sudeste asiático, uma grande epidemia de gripe aviária alarmou o mundo.

Pouco depois, em 2009, no México, surgiram os primeiros casos da gripe suína, dessa vez, rebatizada de gripe A ou H1N1. O vírus se espalhou por todo o mundo, com mais de 75 países registrando casos e declaração de pandemia por parte da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2014, a OMS reconheceu o surto de ebola na Guiné, a terceira epidemia da doença em países africanos, desde os casos iniciais, em meados da década de 1970.

No final de 2019, no mercado da cidade de Wuhan, China, acredita-se que tenha ocorrido o marco zero da contaminação pelo novo coronavírus em humanos. Desde então, a doença se espalhou por todo o mundo e é, hoje, o principal motivo de apreensão mundial.

Esses são apenas alguns dos exemplos da longa história da luta da humanidade contra as epidemias, mas, é possível observar um fator em comum em todas elas, o problema na manipulação dos animais utilizados para a alimentação. Bois tratados com ração de origem animal, carcaças de animais silvestres que viram alimento em locais de carestia, frangos confinados em gaiolas diminutas, porcos manejados em escala industrial.

Não há nenhuma novidade no que está acontecendo, é o que diz Luiz Gustavo Lacerda, engenheiro químico professor e pesquisador de alimentos da Universidade Estadual de Ponta Grossa, “Há muito é acompanhada a associação de animais a enfermidades. A gripe aviária, por exemplo, surgiu em frangos contaminados com vírus presentes nas fezes de animais da gaiola de cima. A intervenção humana acaba alterando a saúde dos animais”, aponta.

A pesquisadora Marion Nestle, professora de nutrição, alimentação e saúde pública na Universidade de Nova York (EUA), segue o mesmo raciocínio e aponta: “Estamos observando o resultado da perda de habitats de animais selvagens, o uso de animais selvagens para alimentação humana, vendas destes em feiras e mercados [de produtos frescos] e a abundância de animais criados de modo intensivo para alimentação”.

Nestle é autora de diversos livros, entre eles “Uma verdade indigesta”, em que expõe como alimentos, bebidas e suplementos priorizam o lucro em detrimento da segurança alimentar, de forma que “A soma de tudo isso facilita a disseminação de doenças bacterianas e virais entre os animais — e aumenta o risco de que essas doenças cheguem aos seres humanos”, comenta.

Uma nota divulgada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, aponta que as doenças transmitidas de animais para seres humanos estão em ascensão e pioram conforme os habitats selvagens são invadidos e destruídos pela atividade humana. Esse tipo de crise requer momentos de redefinição, talvez seja o momento de a humanidade dar um passo atrás e aproveitar a quarentena para repensar a sustentabilidade da cadeia global de alimentos da qual faz parte.

O especialista em marketing agroalimentar, desenvolvimento rural e pesquisador da Universidade Livre de Bolzano, na Itália, Mikael Linder, aponta que a cadeia global de alimentos deve ser repensada “O modelo industrial de produção de alimentos se colocou como alternativa para supostamente trazer segurança alimentar — tanto de acesso quanto de nutrição, preço e padronização. Em parte, conseguiu isso”, diz. “Por outro lado, esse modelo causa impactos ambientais ao se impor como uma via única”.

Sobre o que pode ser feito nesse cenário, Lacerda aponta “Na minha opinião, a resposta para essa questão envolve uma série de fatores que atualmente convergem mais a política, comportamento social e cultural”, diz. “A geração à qual eu pertenço, por exemplo, cresceu sem a preocupação da destinação de plásticos que embalavam os alimentos. Como eu iria imaginar, quando criança, que isso iria parar no mar? Hoje, muitos jovens já têm essa consciência ou, pelo menos, a escola ensina, mas não o suficiente. Ainda sonho com um sistema político que leve às crianças, por exemplo, o conhecimento e a importância da cadeia produtiva de alimentos. Vou além: incluam-se suas consequências ao planeta. Esse tipo de vivência poderia formatar melhores adultos no futuro. Melhores governantes, inclusive.”

Especialistas apontam que a humanidade se encontra diante de uma valiosa oportunidade de repensar toda a sua cadeia produtiva, tornando-a mais sustentável, ética e controlada. O que significa que cabe às indústrias trabalhar de forma mais transparente, levando ao consumidor, o conhecimento de toda a história por trás do alimento que está em seu prato.

Outro ponto de atenção é a necessidade de reduzir os desperdícios, já que a cadeia atual conta com uma perda insustentável, pois o desperdício de alimentos é de 30%, considerando que para o seu cultivo, a agricultura utiliza 75% da água doce e um terço da superfície da Terra. Isso, que se soma a uma estimativa de 10 bilhões de pessoas até 2050. Considerando a perda estimada de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos por ano, tem-se uma fórmula que comprova que o mundo será incapaz de sustentar a humanidade em um futuro muito próximo se não mudarmos de atitude urgentemente.

Fonte: TAB/UOL

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