INTER-RELAÇÃO ENTRE MICROBIOTA INTESTINAL E OBESIDADE

Autoras:

  • Danielle Cristina Seiva
  • Viviane Chaer Borges

Instituição:

  • Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo-SP, Brasil

RESUMO

Introdução e objetivo: A obesidade tornou-se uma doença epidêmica e dentro de um
largo espectro de fatores causais a microbiota intestinal parece ter relação com o
aparecimento da obesidade. Hábitos alimentares e a composição dietética também
podem alterar a microbiota intestinal. Sendo assim, esta revisão tem como objetivos
identificar a inter-relação entre a microbiota intestinal e a obesidade verificando a
interferência da modulação dietética nesse processo e se essa modificação é capaz
de levar a perda de peso no indivíduo com obesidade. Materiais e métodos: Foi
realizada uma revisão de artigos publicados a partir de 2013, utilizando as bases de
dados Pubmed e Science Direct. Artigos anteriores a esta data foram incluídos devido
sua relevância. Foram excluídos estudos com procedimentos cirúrgicos, estudos que
abordavam outras doenças não associadas à obesidade e estudos realizados em
crianças, adolescentes, gestantes ou idosos. Resultados: Foram analisados artigos
que demonstraram evidências de relação da alteração da microbiota intestinal pela
dieta alimentar, alguns levando à alterações benéficas ao indivíduo. Conclusão: A
alteração da microbiota intestinal parece ter maior relação com a presença de
síndrome metabólica do que com obesidade isolada. Alteração da microbiota intestinal
por dieta hipoglicídica leva à redução da bactéria Roseburia e dieta hipocalórica
aumenta Akkermansia muciniphila que apresentou maior redução da circunferência
abdominal e de lipídeos plasmáticos e aumento da sensibilidade à insulina. Mais
estudos são necessários para verificar se com modulação dietética apropriada
pacientes com obesidade conseguem perder seu peso corporal em excesso.

Palavras-chave: Microbiota, Obesidade, Dieta, Perda de Peso e Transplante de
Microbiota fecal

ABSTRACT

Inter-relationship between intestinal microbiota and obesity

Introduction and objective: Obesity has become an epidemic disease and within a
broad spectrum of causal factors the intestinal microbiota seems to be related to the
onset of obesity. Dietary habits and dietary composition may also alter the intestinal
microbiota. Thus, this review aims to identify the interrelation between intestinal
microbiota and obesity by verifying the interference of dietary modulation in this
process and whether this modification is capable of leading to weight loss in the obese
individual. Materials and methods: A review of articles published from 2013 onwards
was performed using the Pubmed and Science Direct databases. Articles prior to this
date have been included due to their relevance. We excluded studies with surgical
procedures, studies that addressed other diseases not associated with obesity and
studies performed in children, adolescents, pregnant women or elderly people.
Results: We analyzed articles that demonstrated evidence of the relationship of
intestinal microbiota alteration by diet, some leading to beneficial changes to the
individual. Conclusion: The alteration of the intestinal microbiota seems be more
related to the presence of metabolic syndrome than to isolated obesity. Alteration of
intestinal microbiota by hypoglycemic diet leads to reduction of Roseburia bacteria and
hypocaloric diet increases Akkermansia muciniphila which showed greater reduction
of waist circumference and plasma lipids and increased insulin sensitivity. More studies
are needed to see if with dietary modulation appropriate obesity patients manage to
lose their excess body weight.

Key words: Microbiota, Obesity, Diet, Weight Loss and Fecal Microbiota
Transplantation

 

INTRODUÇÃO E OBJETIVO

A obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo excesso de gordura
corporal, definida por índice de massa corporal (IMC) ≥ 30 kg/m² (World Health
Organization, 2017). Estima-se que até 2025, 21% das mulheres e 18% dos homens
serão obesos e a obesidade grave (IMC ≥35 kg/m²) pode chegar a aproximadamente
10% da população mundial (NCD, 2016). No Brasil, a obesidade cresceu cerca de
60% nos últimos 10 anos e é duas vezes mais prevalente em indivíduos com mais de
25 anos (Brasil, 2016).

A etiologia da obesidade é multifatorial, ocorrendo por diversas razões: como
interação entre genes, estilo de vida sedentário, bem como fatores ambientais e
emocionais (ABESO, 2016; Baothman e colaboradores, 2016). Além disso, a
obesidade pode estar associada à outras complicações metabólicas, como resistência
à insulina, hipertensão arterial, dislipidemia, doenças cardiovasculares, diabetes e,
recentemente alguns autores têm sugerido presença de alteração na microbiota
intestinal (disbiose) (Tremaroli e Bäckhed, 2012; Woting e Blaut, 2016; Duranti e
colaboradores, 2017; Al-Assal e colaboradores, 2018). Estudos experimentais em
ratos obesos apontam que obesos possuem menor diversidade da microbiota
intestinal existindo uma razão entre os filos Firmicutes / Bacteroidetes alterada com
maior abundância de Firmicutes (Cardinelli e colaboradores, 2014; Turnbaugh e
colaboradores, 2006).

Assim como na obesidade, a microbiota intestinal também pode ser alterada
pelo ambiente, hábitos alimentares e tipo de dieta consumida (Sidhu e Poorten, 2017).
As bactérias presentes neste ambiente participam e auxiliam nos processos vitais que
beneficiam o hospedeiro humano como na síntese de vitaminas, digestão, captura de
energia dos alimentos ingeridos, modulação na resposta imunológica, reforço e
barreira intestinal, entre outros (Baothman e colaboradores, 2016; Cardinelli e
colaboradores, 2014; Al-Assal e colaboradores, 2018).
Diante deste cenário, esta revisão literária tem como objetivos identificar a
inter-relação entre microbiota intestinal e a obesidade, verificar o impacto da
modulação dietética na microbiota intestinal e se esta alteração pode levar indivíduos
com obesidade a perder peso.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Esta revisão realizou-se nas bases de dados do Pubmed e Science Direct,
Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento (RBONE) e em
informações coletadas de site oficiais Associação Brasileira para o Estudo da
Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), NDC Risk Factor Collaboration
(NCD-RisC), Ministério da Saúde e World Health Organization (WHO). Os descritores
utilizados nas bases de dados, estavam em inglês, no qual foram combinados e
também utilizados isoladamente. São eles: “obesity” “gut microbiota”, “weight loss”,
“diet”, “intervention diet” e “fecal microbiota transplantation”. Foram escolhidos artigos
originais e de revisão publicados principalmente entre 2013 e 2018. Alguns estudos
publicados anteriormente à essa data foram incluídos devido à sua relevância e
fundamentação teórica. Foram encontrados 7165 artigos, dos quais foram
selecionados conforme os critérios de inclusão e exclusão (tabela 1).

Tabela 1: Critérios de inclusão e exclusão dos artigos


Inclusão


Exclusão


Artigos publicados entre 2013 e 2018 Artigos publicados anteriormente à 2013
Artigos relacionados com obesidade e microbiota intestinal Artigos realizados com procedimentos cirúrgicos e outras doenças não associadas à obesidade
Artigos realizados com adultos Artigos realizados com crianças, adolescentes, gestantes ou idosos

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

MICROBIOTA INTESTINAL

A microbiota intestinal é ramificada em filos, consequentemente em classe,
ordem, família, gênero e espécie. Apesar de cada indivíduo possuir uma microbiota
única, a composição é constituída por sete filos bacterianos (Firmicutes,
Bacteroidetes, Actinobacteria, Proteobacteria, Fusobacteria, Verrucomicrobia e
Cyanobacteria) (Alou, Lagier e Raoult, 2016) sendo os níveis mais altos da
classificação quatro principais filos, que são: Firmicutes (Clostridium, Enterococcus,
Lactobacillus e Ruminococcus), Bacteroidetes (Bacteroides e Prevotella),
Actinobacteria (Bifidobacterium) e Proteobacteria (Helicobacter, Escherichia). Dentre
esses últimos 90% são predominantemente Bacteroidetes e Firmicutes (Angelakis e
colaboradores, 2012; Jayasinghe e colaboradores, 2016; Lopes-Legarrea e
colaboradores, 2014, Al-Assal e colaboradores, 2018).

O trato gastrointestinal humano é densamente povoado por trilhões de
bactérias, vírus, fungos e archea sendo esta última um tipo de “bactéria” do reino
monera sendo morfologicamente parecido com a bactéria porém geneticamente
parecido com a eucarionte. Esta composição é chamada de microbiota intestinal. O
cólon, em especial, por não possuir suco pancreático e gástrico que poderiam inibir a
colonização destes microrganismos, é a região mais habitada por estas bactérias,
sendo 90% pertencentes aos filos Firmicutes e Bacteroidetes (Baothman e
colaboradores, 2016; Sidhu e Poorten, 2017). Por outro lado, o microbioma é o
conteúdo genético desta microbiota (Tremaroli e Bäckhed, 2012). A riqueza
microbiana refere-se à diversidade destes microrganismos presentes no intestino,
sendo que indivíduos eutróficos têm maior diversidade estando este fato associado à
um perfil metabólico mais saudável. (Dao e colaboradores, 2016; Baothman e
colaboradores, 2016).

Durante a gravidez, a microbiota do bebê começa a se formar, mas é após o
nascimento que a microbiota intestinal se forma de maneira individualizada e única.
Entretanto, pode ser alterada por diversos fatores como o tipo de parto, a
amamentação, a introdução alimentar, uso de antibióticos e qualidade da dieta
ofertada (Sidhu e Poorten, 2017; Baothman e colaboradores, 2016).

O filo Firmicutes, apresenta o maior grupo de microrganismos compondo de 60
a 80% do total de microrganismos que habitam o trato gastrointestinal de um adulto,
enquanto o filo Bacteroidetes, possui classes de bactérias Gram-negativas,
abundantemente distribuídas no corpo humano (Eid e colaboradores, 2017).

Essas bactérias possuem funções na homeostase do hospedeiro, auxiliando
na síntese de vitaminas, no processo digestivo, na captura de energia dos nutrientes,
reforço e barreira intestinal, produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) a
partir de carboidratos não digeríveis e modulação do sistema imunológico (Al-Assal e
colaboradores, 2018; Baothman e colaboradores, 2016; Woting e Blaut, 2016;
Cardinelli e colaboradores, 2014).

A cessação do equilíbrio entre o hospedeiro e a microbiota intestinal é chamada
de disbiose (Gérard, 2015). A disbiose está associada a uma variedade de
comorbidades como doenças respiratórias, hepáticas, gastrointestinais,
cardiovasculares e metabólicas (Cardinelli e colaboradores, 2014). A produção de
enzimas que absorvem nutrientes podem ser afetadas na presença de disbiose
ocasionando um déficit nutricional, levando o indivíduo a perda de peso não saudável
(Spezia e colaboradores, 2009).

A maior parte dos Bacteroidetes produzem o ácido graxo de cadeia curta o
propionato (Baothman e colaboradores, 2016; Eid e colaboradores, 2017) e as
espécies Roseburia, Eubacterium rectale e Faecalibacterium prausnitzii sintetizam
butirato (Angelakis e colaboradores, 2012; Tremaroli e Bäckhed, 2012; Gérard, 2015;
Baothman e colaboradores, 2016; Eid e colaboradores, 2017). Butirato e propionato
mostram efeitos benéficos na homeostase da glicose, sensibilidade à insulina e peso
corporal (Baothman e colaboradores, 2016).

Segundo Dao e colaboradores (2016), é comum encontrar dois AGCC
aumentados nos indivíduos obesos, o butirato (principal substrato de energia para os
colonócitos e que negativamente aumenta a permeabilidade intestinal) e o acetato
(substrato para a lipogênese e colesterol hepático levando a um aumento na
adiposidade, consequentemente no peso corporal). (Dao e colaboradores, 2016).

 

FATORES QUE ALTERAM A COMPOSIÇÃO DA MICROBIOTA INTESTINAL

A alteração na microbiota intestinal pode ser ocasionada pelo tipo de parto, já
que em uma cesariana o contato com a microbiota vaginal é ausente, mas há contato
com a pele da mãe e o ambiente, modificando sua composição (Baothman e
colaboradores, 2016; Eid e colaboradores, 2017; Alou, Lagier e Raoult, 2016).
Portanto, bebês que nascem por cesariana ou não são amamentados exclusivamente,
podem ser colonizados por bactérias presentes no hospital, como Staphylococcus e
Acinetobacter, levando a um microbioma menos saudável, consequentemente estes
bebês são mais suscetíveis a apresentar rinite alérgica, doença celíaca, asma e
diabetes (Sidhu e Poorten, 2017).

O tipo de amamentação também pode ter efeito na composição da microbiota,
por exemplo, a amamentação por mama mostrou que a microbiota dos bebês
possuem mais Bifidobacteria spp do que bebês amamentados por fórmulas. Os bebês
amamentados por fórmula, possuem uma microbiota mais diversa com níveis mais
altos de Bacteroids spp. e Lactobacillus spp. A introdução alimentar, também altera a
composição da microbiota uma vez que alimentos mais sólidos exigem mais atuação
da microbiota (Baothman e colaboradores, 2016; Eid e colaboradores, 2017).

A idade também pode alterar a microbiota. Metanálise de Angelakis e
colaboradores (2012), apontaram que a microbiota do bebê é geralmente dominada
por Bifidobacteria mas a partir de 3 semanas até 1 ano a população de Bacteroides
fragilis aumenta, enquanto Staphylococcus, Clostridium, Bifidobacterium e
Lactobacillus diminui e permanecem estáveis até 52 semanas. Entre 1 e 7 anos de
idade, mostraram mais enterobactérias do que um adulto. Adolescentes apresentaram
abundância nos gêneros Clostridium e Bifidobacterium estatisticamente maior que
adultos. Nos adultos a microbiota se manteve estável e nos idosos houve uma redução
no número de Bacteroides (Angelakis e colaboradores, 2012; Gérard, 2015).

O uso de antibiótico pode afetar a microbiota intestinal e a recuperação pode
ser longa dependendo do tipo de antibiótico (Baothman e colaboradores, 2016).

O aumento do filo Bacteroidetes em 20% está correlacionado com diminuição
na absorção de energia dos nutrientes enquanto o aumento de 20% do filo Firmicutes
está relacionado com maior absorção de energia da dieta. Sendo assim, Murphy e
colaboradores apud Cardinelli e colaboradores (2014), citam que a quantidade de
AGCC produzida pela microbiota intestinal é mais importante do que a razão
Firmicutes / Bacteroidetes.

Estudo em camundongos livres de germes quando comparados com
camundongos convencionais, mostrou que a microbiota pode ser afetada por um dos
principais sensores metabólicos do fígado e do músculo esquelético que é a proteína
quinase ativada pelo monofosfato de adenosina (AMPK). Quando a AMPK fosforilada
é ativada ocorre oxidação de ácido graxo no fígado e no músculo esquelético. Este
fato demonstra uma proteção contra a obesidade induzida por uma dieta alta em
gorduras. Já dieta rica em fibras com produção microbiana de AGCCs, mostrou uma
maior ativação da AMPK. Assim a microbiota, associada a componentes dietéticos
específicos, pode afetar o metabolismo molecular do hospedeiro resultando em
indução ou proteção contra a obesidade (Martinez, Leone e Chang, 2017).

O uso de prebióticos e probióticos, também podem alterar a composição e
atividade metabólica da microbiota. Estudos mostram que a associação de prebióticos
e probióticos, ou seja, simbióticos, podem auxiliar no controle do peso corporal.
Supondo que a obesidade pode ser controlada por meio da modulação da microbiota,
gera-se a hipótese de que o caminho de intervenções nutricionais podem ser efetivas
na obesidade (Baothman e colaboradores, 2016).

 

OBESIDADE E MICROBIOTA INTESTINAL

Um estudo realizado por Turnbaugh e colaboradores (2006) demonstraram que
camundongos geneticamente obesos, possuem aumento no número de Archaea, uma
maior razão Firmicutes / Bacteroidetes e um enriquecimento de genes microbianos
envolvidos na degradação de polissacarídeos. Quando os autores efetuaram a
transferência da microbiota dos camundongos magros e obesos para os
camundongos livres de germes, observaram que a maior extração de energia dos
alimentos, fermentação intestinal, redução de calorias residuais de fezes e maior
quantidade de ganho de peso em camundongos livres de germes foram naqueles que
receberam a microbiota dos ratos obesos e não dos ratos magros. O desenvolvimento
da obesidade ocorreu em duas semanas. Demonstrando assim, que a composição da
microbiota intestinal pode ser influenciada pela extração de energia da fermentação
de polissacarídeos dietéticos não digeríveis (Turnbaugh e colaboradores, 2006;
Lopes-Legarrea e colaboradores, 2014).

O aumento do filo Firmicutes em relação a diminuição do filo Bacteroidetes tem
sido relacionado com a obesidade (Dao e colaboradores, 2016). No estudo de
Munukka apud. Dao e colaboradores (2016), realizado com mulheres obesas com
síndrome metabólica, mostrou uma maior abundância do filo Firmicutes
(Eubacterium rectale/ Clostridium coccoides) do que em mulheres não obesas e em
obesas sem complicação metabólica.

Metanálise realizada por Walters, Xu e Knight (2014), comparou a razão de
Firmicutes / Bacteroidetes de indivíduos magros e obesos para confirmar a associação
do aumento desta razão com a obesidade. Houve uma tendência no aumento desta
razão pacientes obesos, porém, não houve diferença estatisticamente significativante
entre os estudos, o que poderia ser explicado por diferentes populações estudadas,
extração de amostra e manuseio diferentes na apuração dos resultados. Assim, não
se pode afirmar que a microbiota intestinal é diferente entre populações obesas e
magras.

 

INFLUÊNCIA DA DIETA NA MICROBIOTA E OBESIDADE

Estudos com restrição calórica e intervenção no estilo de vida, mostraram
alterações consistentes na microbiota intestinal. Dao e colaboradores (2016),
mostraram que a presença da espécie Akkermansia muciniphila teve correlação com
perfil metabólico saudável. Indivíduos com maior abundância desta espécie obtiveram
maior redução da circunferência abdominal e de lipídeos plasmáticos e aumento da
sensibilidade à insulina.

Duncan apud Dao e colaboradores (2016), estudando 19 homens obesos,
comparou a dieta rica em proteína e baixa em carboidrato durante 4 semanas com a
dieta rica em proteína e com teor moderado de carboidrato. Os resultados mostraram
redução de butirato fecal, Roseburia spp. e Eubacterium rectale, correlacionando com
a menor ingestão de carboidratos. Acetato, isovalerato, propionato e valerato
aumentaram com a ingestão aumentada de carboidratos. A dieta rica em proteína e
baixa em carboidrato indicou um perfil metabólico potencialmente nocivo, rico em
ácidos graxos de cadeia ramificada, compostos N-nitroso e ácido fenilacético.

De acordo com Alou, Lagier e Raoult (2016), cada tipo de macronutriente
(proteína, carboidrato, gordura) influencia a microbiota intestinal. Dietas hiperproteicas
geralmente são baixas em carboidratos, logo estimulam o aumento das espécies com
atividades proteolíticas como Bacteroides spp. e a redução das espécies produtoras
de butirato. No entanto, uma dieta rica em lipídios estimula a produção de ácidos
biliares.

No estudo de Louis e colaboradores (2016), foram selecionados 16 adultos
obesos, com IMC médio de 43 ± 7 kg/m², que obtiveram ou não sucesso na
manutenção de perda de peso após dois anos (n = 9). Os indivíduos foram
examinados no início (T0) e após 3, 6, 12, 18 e 24 meses (T3-T24) com base em
quatro intervenções: médica, exercício, dietética e psicológica. Nos 3 primeiros meses
consumiram dieta de 800 kcal/dia por meio da fórmula dietética (Optifast®)
acrescentado de inulina e após este período foi introduzido alimentação sólida para
manutenção da perda de peso. Os resultados encontrados não mostraram relação
entre a razão Firmicutes / Bacteroidetes e o IMC, parâmetro clínico e peso corporal,
sugerindo que esta razão depende de outros fatores como genética e comorbidades.
Porém, houve uma redução da espécie Roseburia no T3, o que era esperado devido
a dieta baixa em carboidratos. Akkermansia muciniphila aumentou durante todo o
estudo, sendo um indicador de sucesso a longo prazo, uma vez que também foi
encontrado em maior abundância em pacientes sem síndrome metabólica do que nos
pacientes com síndrome metabólica, indicando que A. muciniphila se relaciona com
uma microbiota saudável. Este estudo mostrou também que a razão Firmicutes /
Bacteroidetes está mais associada com a presença ou não de síndrome metabólica,
do que com peso corporal ou IMC, além de sugerirem que a via de fosforilação
oxidativa (que produz ATP) esteve mais abundante nos pacientes com sucesso no
tratamento (Louis e colaboradores, 2016).

Em outro estudo realizado durante 6 meses, foram utilizados um grupo controle
com 13 indivíduos eutróficos (IMC ≤ 25 kg/m²), um grupo controle com 13 indivíduos
obesos (IMC ≥ 30 kg/ m²), que não receberam nenhuma intervenção. O grupo de
intervenção possuía 18 indivíduos (IMC > 30 kg/ m²), que utilizaram fórmula
(Optifast®) e ingeriram 800 kcal/ dia durante os 3 primeiros meses sendo que 5
semanas depois da dieta restrita em calorias, passaram a consumir 1600 kcal/dia.
Esse grupo também foi submetido à prática de atividade física. O objetivo foi verificar
se uma intervenção hipocalórica por 3 meses modificava a diversidade da microbiota
e/ou o metabolismo intestinal e se essas mudanças, caso benéficas, continuariam
dando resultados no tempo de manutenção de peso, ou seja, por mais de 3 meses.
Os resultados de diversidade entre filos e gêneros, apresentou uma diferença
significativa quando foi comparado o grupo controle com o grupo de intervenção (p =
0,047), mas o mesmo não ocorreu na comparação com o grupo obeso. Como foi
identificado uma alteração importante na diversidade no grupo de intervenção, durante
os 3 primeiros meses, os autores buscaram identificar as espécies responsáveis por
esta alteração na diversidade e foi encontrado uma associação com o gênero
Acinetobacter (p = 0,006). O estudo mostrou que uma intervenção dietética em
humanos com obesidade, pode alterar a diversidade da microbiota intestinal, mas que
essas mudanças não são sustentadas durante a manutenção do peso. (Heinsen e
colaboradores, 2016).

 

ALTERAÇÃO DA MICROBIOTA INTESTINAL PODE LEVAR A PERDA DE PESO?

Segundo Aroniadis e Brandt apud Jayasinghe e colaboradores (2016), o
transplante fecal pode alterar a flora intestinal de um indivíduo obeso desde que a
comunidade microbiana que foi isolada seja proveniente de um intestino saudável.

Um estudo piloto duplo-cego foi realizado para investigação da composição da
microbiota intestinal e metabolismo da glicose, por meio do transplante fecal
alogênico, ou seja, de indivíduos eutróficos (IMC < 23 kg/m²) para os indivíduos com
síndrome metabólica (IMC 30 kg/m², circunferência abdominal de 102 cm e glicose de
jejum 5,6 mmol/L) e auto transplante de fezes dos indivíduos com síndrome
metabólica. Após seis semanas do transplante fecal os indivíduos alogênicos tiveram
um aumento na sensibilidade à insulina, maior diversidade bacteriana, principalmente
Roseburia intestinalis (produtora de butirato) que aumentou 2,5 vezes, sugerindo que
há uma relação do butirato na melhora da sensibilidade à insulina (Vrieze e
colaboradores, 2012).

O transplante fecal também tem sido utilizado com sucesso para tratamento da
infecção por Clostridium difficile resistente a antibióticos. Entretanto apesar dos
estudos experimentais mostrarem que é possível que o transplante fecal auxilie
pacientes com obesidade na perda de peso, são poucos os estudos para que se
comprove essa afirmação. Ademais outras perguntas são necessárias, por exemplo,
qual deve ser a via de acesso, qual a quantidade de volume fecal que deve ser
transplantado dentre outras questões práticas que permitiriam um novo caminho de
tratamento para essa doença de tanta morbidade (Jayasinghe e colaboradores, 2016).

Assim como na explicação de Bojanova e Bordenstein, no transplante fecal são
transferidos também outros microrganismos como vírus, archea, fungos, protistas,
metabólitos e colonócitos, ou seja, não apenas bactérias são transferidas. Portanto,
um melhor entendimento do que está sendo transferido também é necessário.

 

CONCLUSÃO

Verificou-se diferenças metodológicas entre os estudos dificultando uma
conclusão precisa. Parece haver uma tendência no aumento da proporção de
Firmicutes / Bacteroidetes em obesos embora outros estudos neguem associação
dessa alteração unicamente com o peso corporal e sim com a presença de síndrome
metabólica. A composição dietética pobre em carboidratos reduziu a bactéria
Roseburia, gerando uma menor produção de butirato que mostrou efeitos benéficos
na maior sensibilidade à insulina. Dieta hipocalórica parece levar ao aumento da
espécie Akkermansia muciniphila bactéria essa relacionada com uma microbiota
saudável. Indivíduos com maior abundância desta espécie obtiveram maior redução
da circunferência abdominal e de lipídeos plasmáticos e aumento da sensibilidade à
insulina. Assim indiretamente foi possível verificar que alterando a flora bacteriana
intestinal ocorre melhora nos parâmetros antropométricos e bioquímicos mas não foi
possível concluir se em humanos com obesidade essa alteração leve diretamente à
perda de peso. Muitos detalhes da relação entre a microbiota e a obesidade precisam
ser ainda elucidados.

CONFLITO DE INTERESSE

Não há conflito de interesse.

 

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