Quando o governo da Índia curvou-se à decisão de grandes empresas do ramo alimentar, em 2018, postergando a decisão de inserir etiquetas de alerta em alimentos processados e prejudiciais à saúde, as autoridades do país buscaram minimizar as críticas criando um painel de especialistas para revisar o sistema de rotulagem, uma ação que foi muito além do que outros países fariam para lutar contra as taxas crescentes de obesidade.

Contudo, Boindala Sesikeran foi o homem escolhido para a tarefa. Nutricionista e ex-conselheiro da Nestlé, a escolha de Sesikeran enfureceu ainda mais os defensores da alimentação saudável. Isso porque o profissional é afiliado ao International Life Sciences Institute (ILSI), uma ONG norte-americana conhecida por se infiltrar em agências de saúde e nutrição dos governos de todo o mundo.

O instituto foi criado há 40 anos por um alto executivo da Coca-Cola e tem sucursais em 17 países, sendo financiado, quase que totalmente, por gigantes do agronegócio e das indústrias alimentar e farmacêutica.

Entre as décadas 1980 e 1990, a organização defendia os interesses da indústria do tabaco nos Estados Unidos e Europa e, recentemente, expandiu suas atividades para a Ásia e América Latina.

As atividades do instituto são especialmente intensivas na China, Índia e Brasil – respectivamente o primeiro, segundo e o sexto países mais populosos do mundo. No Brasil, representantes do ILSI possuem assentos em diversos painéis de debate sobre alimentação e nutrição voltados a pesquisadores de universidades.

Após décadas de operação sem chamar a atenção, o ILSI se tornou alvo dos defensores da boa saúde, que afirmam que o instituto não passa de uma entidade de fachada voltada a alavancar os interesses de seus 400 membros corporativos – dentre os quais, estão gigantes da indústria, como a Coca-Cola, DuPont, PepsiCo, General Mills e Danone – e que garantem seu orçamento de 17 milhões de dólares.

Embora representantes do instituto neguem as alegações, na Índia, por exemplo, a influência em expansão do ILSI é coincidente com a ascensão das taxas de obesidade, doenças cardiovasculares e, especialmente da diabetes. Para tentar conter o cenário, o governo tomou ações, como a inclusão de um imposto de 40% para refrigerantes que levam açúcar na composição.

Contudo, outras medidas, incluindo a proibição de junk food nas escolas e entorno, perderam força em meio à oposição das empresas de alimentos e bebidas. O poder da indústria de alimentos consegue superar o da indústria do tabaco.

“Mas esses participantes agem de maneira tão escusa que não se atrevem a sentar na mesa de negociação representando a indústria alimentar, porque ninguém aceitaria a Coca-Cola ou a Pepsi na conversa”, encerra Sunita Narain, diretora do Centro para Ciência e Clima de Nova Délhi.

 

Fonte: Estadão

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