Consumo de carboidratos está inversamente associado com marcadores de dano muscular em árbitros de futebol

*Coluna destinada a prestigiar e incentivar pesquisadores nacionais. 


 

Autores: 

  • Reinert Camile
  • Cembranel Franciele
  • Schlösser Larissa
  • Gabiatti Mariana P
  • Faccin Gerson L
  • Carvalho Jolmerson
  • Hansen Fernanda

 

INTRODUÇÃO

A performance e preparação física dos árbitros de futebol vem ganhando destaque devido ao desenvolvimento das aptidões físicas dos jogadores. Para que estes possam acompanhar devidamente a partida e ter a capacidade de tomada de decisão a preparação dos árbitros quanto ao desempenho físico é de suma importância1.

Exercícios intensos exaustivos, novos ou pouco frequentes podem causar dano muscular induzido pelo exercício (DMIE) e suas consequências indesejáveis ​podem diminuir a capacidade de se exercitar e aderir a um programa de treinamento. As enzimas creatina quinase (CK) e aspartato aminotransferase (AST) podem ser utilizadas como marcadores de estado funcional do tecido muscular2.

O consumo alimentar adequado de carboidrato é importante para a reposição e manutenção dos estoques de glicogênio, performance física e reparação de dano muscular3. Intervenções nutricionais são cruciais para o processo de recuperação e adaptação ao estresse oxidativo e à inflamação, que, acredita-se, contribuem para a DMIE7.

 

OBJETIVO

Investigar a relação entre o consumo de carboidrato e marcadores de dano muscular em árbitros de futebol.

Palavras-chave: Dano Muscular Induzido pelo Exercício (DMIE), Consumo Alimentar, Árbitros de Futebol, Exercício.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este é um estudo observacional e transversal. A amostra foi selecionada por conveniência. Os dados foram coletados em novembro de 2018. Foram avaliados 20 árbitros de Santa Catarina integrantes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

O estudo seguiu os preceitos estabelecidos na Resolução do Conselho Nacional de Saúde no 466 de 2012 (Brasil, 2013) e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFSC para sua realização (CAAE: 82584318.0.0000.0121).

Figura 1 Desenho coleta de dados

IPAQ (Questionário Internacional de Atividade Física

 

Figura 2 Esquema Análise do consumo alimentar

 

 

 

 

 

 

O consumo alimentar dos participantes foi avaliado por meio de 3 recordatórios   24 horas , sendo 2 de dias de semana e 1 de fim de semana pelo método de múltiplas passagens 5 . Os dados de consumo de medidas caseiras foram convertidos para massa ou volume (gramas ou mL) com o auxílio da tabela Pinheiro (2004) ou por meio do Manual de Inquérito da Saúde do Adulto (ISA) da USP. As preparações foram tabuladas como alimentos separados. Quando o participante não soube relatar a receita ou modo de preparo foi realizada uma receita padrão no laboratório de técnicas dietéticas no CCS (Centro de Ciências da Saúde) da UFSC. Todos os alimentos com suas devidas medidas em grama ou mL foram tabulados no programa excel® em inglês para então alimentar o programa análise do consumo alimentar.

As análises foram realizadas com o auxílio do programa Nutrition Data System for Research (NDSR), Versão grad pack 2017 (NCC Food and Nutrient Database, University of Minnesota, Minneapolis, MN, USA). Os dados de consumo foram exportados do NDSR para o excel® para serem exportados e trabalhados no Stata.

Os valores de consumo de macronutrientes foram ajustados segundo variabilidade intra e interindividual por meio da fórmula: Ingesta Ajustada = [(média do sujeito – média do grupo) x (desvio padrão interpessoal/desvio padrão observado)] + média grupo.

A fim de analisar a composição corporal foi coletada massa corporal (balança da marca Marte®, modelo PP 180, com precisão 100 gramas) e estatura (estadiômetro da marca AlturaExata® com precisão de 1 milímetro).

O percentual de gordura corporal e massa livre de gordura foi realizado por meio da absorciometria por dupla emissão de raios-X, equipamento Lunar Prodigy Advance, modelo Discovery Wi Fan-Beam – S/N 81593, (GE®, Medical Systems, Madison, EUA).

Para avaliar a CK e AST dos participantes foram realizadas análises bioquímicas no Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Universitário Polydoro Ernani São Thiago, da Universidade Federal de Santa Catarina. A determinação foi realizada através de método automatizado e padronizado do laboratório.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Tabela 1. Caracterização da amostra

  Média DP Mín – Máx
Idade 31,15 (±4,54) 24,00 – 41,00
Massa Corporal 81,19 (±10,36) 57,50 – 101,40
% Gordura* 22,22 (±5,20) 12,87 – 29,40
Massa Livre de Gordura* 65,73 (±9,39) 48,37 – 87,09
CK 248,9 (±369,99) 55,00 – 1804,00
AST 26,20 (±9,18) 15,00 – 61,00
IPAQ (nível baixo, moderado ou intenso) n=16 intenso n=3 moderado n=1 baixo
Energia (Kcal) 2781,44 (±1838,75) 637,65 – 6640,13
Carboidrato (g) 219,33 (±67,68) 111,25 – 326,88

n=20 *DXA. DP (desvio padrão), AST (aspartato aminotransferase), CK (creatina quinase), IPAQ (Questionário Internacional de Atividade Física).

 

Tabela 2. Regressão linear

Variável dependente Exposição Bruta Ajustada
b IC95% Valor-p b IC95% Valor-p
CK Consumo

Carboidrato

-0,03 0,14 (-0,008)-(-0,008) 0,11 -0,1 0,75 (-0,013)-(-0,05) <0,001
AST Consumo Carboidrato -0,05 0,14 (-0,11)-(-0,01) 0,11 -0,04 0,85 (-0,05)-(-0,02) <0,001

n=20. Resultados descritos em b, R², IC95% e Valor-p. AST (aspartato aminotransferase), CK (creatina quinase). Foi realizado ajuste pelo consumo de energia, massa livre de gordura, percentual de gordura, massa corporal e idade. Nível de significância p<0,05.

 

Sabe-se que a ingestão de carboidrato após o exercício melhora o saldo líquido proteico, atenuando o aumento da degradação de proteínas musculares induzido pelo exercício8. Em relação aos marcadores de dano, foi reportado que o aumento de AST e CK na circulação está associado a necrose celular e dano tecidual após uma lesão aguda ou crônica. O dano celular direto pode ocorrer pelo estresse mecânico que acontece durante as sessões de treino2. Importante salientar que não são marcadores específicos de dano muscular, pois estão presentes em outros tecidos como no músculo cardíaco e fígado, mas que têm sido usados como DMIE em diversos estudos da literatura2,7,8.

A CK apresenta variações de valores médio em repouso dependendo da modalidade esportiva praticada. Os valores de CK (249 ±367) encontrados nos árbitros estão aumentados em relação aos valores de referência (39-175U/L) e isto também foi encontrado em jogadores de futebol acompanhados no campeonato brasileiro (CK 493 ±315)6.

Os valores de AST podem aumentar durante e após o exercício dependendo da duração e intensidade. Os valores de AST geralmente acompanham os valores de CK em atletas, ou seja, elevam-se em proporção a elevação de CK no plasma2. O valor de referência para AST é de 10-40U/L, a média encontrada nos indivíduos deste estudo foi de 26,2U/L.

 

CONCLUSÃO

Quanto menor o consumo de carboidrato maior os níveis séricos de marcadores de dano muscular AST e CK.

 


Instituição: 

1Departamento de Nutrição e 2Departamento de Educação Física – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. ARDIGÒ, Luca Paolo et al. A low-cost method for estimating energy expenditure during soccer refereeing. Journal of Sports Sciences, v. 33, n. 17, p. 1853–1858, 2015.
  2. BANFI, Giuseppe et al. Metabolic markers in sports medicine. 1. ed. [S.l.]: Elsevier Inc., 2012. v. 56.
  3. BURKE, Louise M. et al. International association of athletics federations consensus statement 2019: Nutrition for athletics. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism, v. 29, n. 2, p. 73–84, 2019.
  4. CASTAGNA, Carlo; ABT, Grant; D’OTTAVIO, Stefano. Physiological Aspects of Refereeing Performance and Training. SPORTS MEDICINE, v. 47, n. 7, p. 625–646, 2006.
  5. CONWAY, JM et al. Effectiveness of the US Department of Agriculture 5-step multiple-pass method in assessing food intake in obese and nonobese women. American Journal of Clinical Nutrition, v. 77, n. 5, p. 1171–1178, 2003.
  6. LAZARIM, Fernanda L. et al. The upper values of plasma creatine kinase of professional soccer players during the Brazilian National Championship. Journal of Science and Medicine in Sport, v. 12, n. 1, p. 85–90, 2009.
  7. OWENS, Daniel J. et al. Exercise-induced muscle damage: What is it, what causes it and what are the nutritional solutions? European Journal of Sport Science, v. 19, n. 1, p. 71–85, 2019.
  8. SOUSA, Mónica; TEIXEIRA, Vítor H.; SOARES, José. Dietary strategies to recover from exercise-induced muscle damage. International Journal of Food Sciences and Nutrition, v. 65, n. 2, p. 151–163, 2014.
  9. TIDBALL, James G. Mechanisms of muscle injury, repair, and regeneration. Comprehensive Physiology, v. 1, n. 4, p. 2029–2062, 2011.

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