PodCast Imunologia nutricional: A relação entre nutrição, microbiota intestinal, sono e resposta imunológica por Daniel Barreto

 

O sistema imunológico tem por função primária o combate a agentes infecciosos e reparo de tecidos danificados, contudo também está envolvido no surgimento de grande parte das doenças cardiovasculares, neurodegenerativas, cânceres, autoimunidade e alergias.

Não se trata apenas de evitar um resfriado ou responder à vacinação, mas de regular uma diversidade de células e moléculas, que devem agir em perfeita harmonia a fim de promover uma resposta imunológica satisfatória ou suprimi-la, quando necessário (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2015).

Nesse contexto, o estado nutricional, a microbiota intestinal, o sono e o abuso de álcool podem impactar diretamente nessa regulação.

  • Zinco: aumenta a capacidade fagocítica das células imunológicas, a atividade citotóxica de células NK e linfócitos T CD8+, assim como a resposta de anticorpos.
  • Cobre: sua deficiência leva à menor produção de anticorpos, capacidade fagocítica e proliferação de linfócitos T e B.
  • Selênio: participa do aumento da função de células NK e proliferação de linfócitos.
  • Ferro: apresenta efeito na diferenciação e proliferação de linfócitos T, células NK, monócitos, macrófagos, produção de anticorpos e capacidade fagocítica.
  • Vitaminas A, E, C e D e polifenóis: também atuam de forma similar (PUERTOLLANO, 2011; CUEVAS, 2013; GLEESON, 2016).

Estes são exemplos de como o estado nutricional e a ingestão de compostos bioativos impactam diretamente na proteção contra microrganismos, cânceres e outras doenças.

 

 

Para se obter adequados níveis desses nutrientes, recomenda-se a ingestão de suas fontes alimentares:

  • O zinco está presente em ostras, semente de abóbora, castanha-de-caju, -do-brasil, amêndoas, amendoim, lentilha;
  • O cobre, em castanha-de-caju, -do-brasil, amêndoas, chocolate amargo (mín. 70% cacau), aveia, lentilha;
  • O selênio, em castanha-do-brasil e, em menor quantidade, outras oleaginosas;
  • O ferro, em carnes, leguminosas e folhas verde-escuras;
  • A vitamina A, em gema de ovo, laticínios integrais, fígado, batata-doce, mamão, cenoura e abóbora;
  • A vitamina C, na acerola, goiaba, caju, pimentão, mamão, kiwi, morango, laranja, limão;
  • A vitamina E, em óleos vegetais, oleaginosas, linhaça, abacate, açaí, peixes em geral, ovos, fígado;
  • A vitamina D é obtida pela exposição solar e consumo de peixes e cogumelos.
  • Os polifenóis, presentes na cebola roxa, branca, cranberry, alho cru triturado, própolis, cúrcuma, gengibre, chá verde, uva, chocolate amargo e outros alimentos (UNICAMP, 2011; USDA, 2019). 


Vale a pena considerar que uma alimentação equilibrada e variada é fundamental para que seja suprida a demanda dos inúmeros nutrientes que atuam sobre o sistema imunológico.


 

Por exemplo, caso seja consumida apenas a semente de abóbora para atender a necessidade de zinco, deixar-se-á de consumir outros alimentos que, além desse mineral, também contêm ferro, magnésio, vitamina A e muitos outros. Assim, o zinco poderá estar adequado, mas os outros nutrientes não, o que enfraquecerá a resposta imunológica. Além disso, outras vitaminas e minerais também são indispensáveis para a homeostase imunológica e estão presentes em um padrão alimentar saudável.

Outro aspecto que influencia a o sistema imunológico é a microbiota intestinal, que se modifica desde o nascimento, conforme o tipo de parto, amamentação, uso de fórmulas, antibióticos, saúde da mãe, exposição a microrganismos, convivência com animais domésticos e outros fatores.

É por meio dos microrganismos que habitam no intestino que as células imunológicas sofrem maturação, produzem anticorpos e geram tolerância imunológica. Em um quadro de disbiose, que pode ter início na infância, patógenos estimulam a produção de citocinas proinflamatórias e aumentam o risco do desenvolvimento de alergias e doenças autoimunes (TAMBURINI, 2016).

Apesar de ainda serem necessários mais estudos para se compreender o impacto que a ingestão alimentar exerce na microbiota intestinal, a literatura científica atual já dispõe de informações relevantes.

Singh et al. (2017), em uma revisão de literatura, relataram que um padrão alimentar ocidental, rico em proteínas de fonte animal, gorduras saturadas, adoçantes artificiais, pobre em fibras, amido resistente e polifenóis estava associado ao crescimento de bactérias relacionadas à autoimunidade, doenças inflamatórias intestinais, obesidade, infecções respiratórias, gastroenterites, gastrites, úlceras e alergias, enquanto o padrão mediterrâneo e o uso de probióticos esteve associado à diminuição das mesmas e ao crescimento daquelas associadas à saúde imunológica.

O sono é outro aspecto que interfere na resposta imunológica e também é regulado pela alimentação. Comparados àqueles que dormem menos de 7 horas ou mais de 8 horas por noite, os indivíduos cuja duração de sono é entre 7 e 8 horas apresentam menor produção de citocinas proinflamatórias e maior recuperação muscular, imunológica e endócrina.

Por outro lado, o baixo consumo de carboidratos, vitaminas B3, B6, B9, B12 e magnésio e o abuso de álcool promovem a piora na qualidade do sono, a partir da queda na produção e secreção de melatonina, diminuição do tempo de sono REM e aumento na latência do sono. Com isso, ocorre um aumento no risco de infecções, pela menor eficiência no combate aos microrganismos (DOHERTY et al., 2019).

Deficiências nutricionais, alterações na permeabilidade intestinal e distúrbios do sono frequentemente acometem atletas e podem levar à diminuição no rendimento esportivo, maior risco de infecções respiratórias, desconfortos gastrintestinais e aumento na inflamação (VAN WIJCK et al., 2012; THOMAS; ERDMAN; BURKE, 2016; DOHERTY et al., 2019).

Seja no contexto do alto rendimento ou estritamente da saúde, o sistema imunológico pode ser modulado por carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas, minerais, compostos bioativos e pré e probióticos e deve ser visto como um alvo terapêutico.


REFERÊNCIAS

ABBAS, Abul K.; LICHTMAN, Andrew H.; PILLAI, Shiv. Cellular and molecular immunology. Philadelphia: Elsevier Saunders, 2015.

THOMAS, D. T.; ERDMAN, K. A.; BURKE, L. M. American College of Sports Medicine Joint Position Statement. Nutrition and Athletic Performance. Med Sci Sports Exerc. 2016 Mar;48(3):543-68.

CUEVAS, Alejandro et al. Modulation of immune function by polyphenols: possible contribution of epigenetic factors. Nutrients. 2013 Jul; 5(7): 2314–2332.

DOHERTY, R. et al. Sleep and nutrition interactions: implications for athletes. Nutrients. 2019, 11(822)

GLEESON, Michael. Immunological aspects of sport nutrition. Immunol Cell Biol. 2016 Feb;94(2):117-23.

PUERTOLLANO, María A. et al. Dietary antioxidants: immunity and host defense. Curr Top Med Chem. 2011;11(14):1752-66.

SINGH, R. K. et al. Influence of diet on the gut microbiome and implications for human health. J Transl Med. 2017 Apr 8;15(1):73.

TAMBURINI, S. et al. The microbiome in early life: implications for health outcomes. Nat Med. 2016 Jul 7;22(7):713-22.

UNICAMP. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos. 4. ed. Campinas: NEPA-Unicamp, 2011.

USDA. Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. USDA Food Composition Databases Disponível em: <https://ndb.nal.usda.gov/ndb>. Acesso em 30 de maio de 2019.

Daniel Barreto

Nutricionista e Profissional de Educação Física. Possui especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido e em Nutrição aplicada ao Exercício Físico, ambas pela USP. Mestre em Alergia e Imunopatologia pela USP. Aluno de especialização em Nutrição Clínica Funcional pela VP Centro de Nutrição Funcional e de doutorado em Nutrição pela USP. Atende em consultório particular e dá aula em pós-graduações, abordando os seguintes temas: doenças imunológicas e cardiometabólicas, nutrigenética, microbiota intestinal e nutrição aplicada ao exercício físico.

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