*Coluna destinada a prestigiar e incentivar pesquisadores nacionais. 


Autores: 

  • Camyla Vidal Alves: alvescamylavidal@gmail.com
  • Thayza Christina Montenegro Stamford;
  • Janilson Felix da Silva;
  • Bruno Oliveira de Veras;
  • Penha Patrícia Cabral Ribeiro

 

INTRODUÇÃO

A faveleira (Cnidoscolus quercifolius Pohl), é uma planta endêmica do nordeste brasileiro, especificamente da região semiárida, pertencente à família da Euphorbiaceae. A espécie produz frutos, cujas sementes são oleaginosas, da qual, são utilizadas para produção de óleo comestível (SANTOS et al., 2017). Um dos métodos utilizados para a extração desse óleo é a prensagem a frio, na qual, resulta em um coproduto (RIBEIRO et al., 2017).

O coproduto da faveleira presenta apresenta atividade antioxidante e compostos fenólicos. Essas propriedades caracterizam este coproduto como um ingrediente funcional, que pode atuar na prevenção de patologias relacionadas com o estresse oxidativo, como câncer, diabetes e aterosclerose (RIBEIRO et al., 2017; SILVA et al., 2018).

A utilização de coprodutos provenientes do processo de extração de óleos tem se tornado um grande atrativo pelas indústrias alimentícias, constituindo uma alternativa econômica e sustentável para obtenção de alimentos funcionais. A agregação de valor está atrelada majoritariamente ao alto percentual proteico (RODSAMRAN; SOTHORNVIT, 2017). A aplicação de proteínas vegetais na manufatura de alimentos está relacionada ao seu perfil nutricional, bem como a qualidade dos aminoácidos e bioatividade, dentre elas atividade antioxidante (LI et al., 2018; LU et al., 2019).

Com bases nessas informações, este trabalho foi desenvolvido objetivando a obtenção de frações proteicas de coproduto de prensagem da faveleira Cnidoscolus quercifolius POHL, com potencial atividade antioxidante.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

  • Obtenção da farinha

Os frutos da faveleira foram coletados na Cidade de São José do Seridó/Brasil. Uma espécime da planta foi depositada no Herbário da UFRN sob número 20064. As sementes foram submetidas a prensagem a frio, resultando em um coproduto de prensagem (torta). O coproduto passou pelo processo de secagem na estufa à 60ºC por 10 horas, em seguida foi submetido a trituração, resultando em uma farinha.

  • Composição química da farinha

A farinha foi caracterizada quanto aos teores de umidade, cinza, lipídeos e proteínas segundo AOAC (1998). O percentual de umidade foi determinado através de secagem em estufa a 105 °C até peso constante. A quantidade de lipídeos foi determinada pelo método Soxhlet. O teor de proteína bruta foi analisado pelo método Kjeldahl. E o teor de cinzas foi quantificado após a pesagem do produto da queima da farinha a 550ºC.

  • Obtenção de frações proteicas

Inicialmente a farinha foi desengordurada com n-hexano (1:10 m /v), em seguida submetida a extração sequencial com diferentes solventes para obtenção de determinados grupos proteicos: água (Albumina), NaCl (Globulina), isopropanol (Prolamina), ácido acético (Gluteína-1) e NaOH (Gluteina-2) (SIDDEEG et al., 2015). A concentração proteica foi determinada pelo método de Bradford (1976).

  • Atividades antioxidantes

A avaliação da atividade antioxidante foi realizada pelos métodos de sequestro de radicais DPPH (BLOIS, 1958) e ABTS+ (RE et al., 1999), determinação da Atividade antioxidante total (RIBEIRO et al., 2017) e Sequestro do Radical Superóxido (RIBEIRO et al., 2017). Todas as frações proteicas foram padronizadas na concentração de 100 µg/mL, sendo utilizado como padrão de referência um análogo a vitamina E (Trolox®).

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A composição centesimal da farinha de faveleira está expresso na tabela 1. Foi possível observar que a farinha de coproduto apresenta um alto o teor de lipídeos, proteínas e cinzas com baixo teor de umidade, sendo significativamente igual ou superior a outras proteínas, como de trigo e centeio (CARDOSO et al., 2019).

Tabela 1. Composição química centesimal da farinha da faveleira (Cnidoscolus quercifolius POHL).

Constituinte Média (%) Desvio Padrão
Umidade (%) 3,49 0,00
Cinzas (%) 4,56 0,00
Lipídeos (%) 28,48 2,65
Proteínas (%) 22,79 2,40

 

Os resultados das atividades antioxidantes estão representados no gráfico 1. Pode-se perceber que todas as frações proteicas apresentam atividade antioxidante nos diferentes métodos utilizados, no entanto, a fração correspondente as prolaminas foi apresentou melhores resultados em todos os ensaios. A composição de aminoácidos que formam essas frações proteicas pode estar entrelaçada ao resultado obtido, sendo necessário à sua quantificação para avaliação (SIDDEEG et al., 2014).

            Na avalaição da atividade antioxidante pelo sequestro do radical DPPH, foi observado que a frações prolamina e a glutelina-1 apresentaram melhor resultados quando comparada as demais frações, e outras frações proteicas farinhas como as de chia (ORONA-TAMAYO et al., 2015). No ensaio do radical ABTS, a prolamina foi a fração que maior apresentou capacidade de inativar o radical, semelhante ao observado em outros estudos como a farinha de coco (LI et al., 2018) e feijão azuki (DURAK et al., 2013). Para o radical superóxido, a fração correspondente as globulinas foi o que melhor apresentou resultado, ao contrário do que foi observado nas frações da farinha de coco (LI et al., 2018) e semente de chia (GRANCIERI; MARTINO e MEJIA, 2019).

Gráfico 1. Atividades antioxidantes de frações proteicas farinha de faveleira (Cnidoscolus quercifolius POHL).

Legenda: (A) Atividade Antioxidante Total; (B) Redução do radical DPPH; (C) Redução do radical ABTS+; (D) Sequestro do Radical Superóxido.

CONCLUSÕES            A farinha da semente de faveleira pode ser considerado um alimento funcional, apresentando um alto teor de proteínas, das quais, apresentam alta atividade antioxidante, destacando-se as proteínas pertencentes ao grupo das prolaminas.

 


Instituição: 

  • Departamento de Nutrição, Universidade Federal de Pernambuco, Recife-PE
  • Departamento de Medicina Tropical, Universidade Federal de Pernambuco, Recife-PE
  • Departamento de Bioquímica, Universidade Federal de Pernambuco, Recife-PE


 

REFERÊNCIAS

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