O microbioma intestinal é um marcador expressivo no desenvolvimento de doenças crônicas e autoimunes. Pesquisas recentes comprovam essa relação, sobretudo, na progressão de doenças cardiovasculares (DCV), aumentando a atenção, por parte dos profissionais de saúde, a respeito de suas condutas preventivas na prática clínica.

As DCVs englobam um conjunto de alterações, como doença arterial coronariana, doença arterial periférica e doença vascular cerebral, que são consideradas as causas principais de mortalidade no mundo, o que representa um valor de 30% da mortalidade global anualmente.

Um amplo espectro de fatores de risco está envolvido na fisiopatologia das DCV, com destaque para presença de placas de ateroma, hipertensão, hiperlipidemia e envelhecimento. Os estudos comprovam, cada vez mais, que a influência do estilo de vida, como padrão alimentar e sedentarismo, pode afetar a morbidade e o prognóstico de cardiopatas de forma significativa.

Uma recente revisão sistemática e metanálise (2018) investigou estudos de coorte disponíveis que evidenciaram quantitativamente a associação entre os níveis de N- óxido de trimetilamina (TMAO) circulante basal e eventos cardiovasculares especificamente associados à microbiota intestinal.

O TMAO, produto da oxidação hepática do metabólito microbiano TMA, tem sido estudado pelo seu potencial efeito promotor do desenvolvimento de doenças ateroscleróticas e cardiometabólicas.

TMA é um composto orgânico produzido pela microbiota intestinal, especificamente, a partir do metabolismo microbiano de nutrientes dietéticos que possuem a porção TMA, tal como colina, fosfatidilcolina e L-carnitina. A TMA, por sua vez, é produzida como um produto residual de enzimas microbianas (TMA lipases), sendo rapidamente oxidada em TMAO pelas enzimas flavina mono-oxigenase no fígado, sofrendo liberação na circulação sanguínea. 

Diversos estudos levantaram os aspectos relacionados aos níveis de TMAO na aterosclerose, incluindo as interações potenciais com vias inflamatórias, metabolismo do colesterol, ativação plaquetária e eventos trombóticos. Evidências postulam ainda que o TMAO pode prolongar os efeitos da angiotensina e exacerbar o remodelamento cardíaco, favorecendo alterações significativas em pacientes com insuficiência cardíaca. 

A alta ingestão de alimentos de origem animal está associada a uma maior produção de TMAO, em que estudos observam maiores concentrações deste metabólito em fluidos corporais de indivíduos avaliados.

Por fim, é preciso ressaltar que os mecanismos subjacentes à associação entre o TMAO e os riscos de doenças cardiovasculares devem receber uma investigação mais aprofundada por meio da literatura científica. Contudo, torna-se essencial que o nutricionista avalie essa possibilidade no atendimento de pacientes com DCV e adote as estratégias necessárias na prática clínica.

Quer saber mais sobre o assunto? Aproveite a oportunidade de adquirir a palestra do Dr. Murilo Pereira sobre o tema: TMAO e risco para doenças cardiovasculares 

 


REFERÊNCIAS

JIAQIAN, Q. et al. Circulating trimethylamine N-oxide and the risk of cardiovascular diseases: a systematic review and meta-analysis of 11 prospective cohort studies. J. Cell. Mol. Med, v. 22, n. 1, p. 185-194, 2018.

BU, J.; WANG, Z. Cross-Talk between Gut Microbiota and Heart via the Routes of Metabolite and Immunity. Gastroenterol Res Pract., v. 2018, p. 1-8, 2018.

TANG, W. et al. Gut Microbiota in Cardiovascular Health and Disease. Circ Res., v. 120, n. 7, p. 1183-1196, mar. 2017.

MEYER, K.; BENNETT, B. Diet and Gut Microbial Function in Metabolic and Cardiovascular Disease Risk. Curr Diab Rep., v. 16, n. 10, p. 1-13, oct. 2016.

TANG, W.; HAZEN, S. The Gut Microbiome and its Role in Cardiovascular Diseases. Circulation, v. 135, n. 11, p. 1008–1010, 2017.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui