A conduta nutricional predominante para prevenir alergia alimentar, em bebês de alto risco com condições genéticas para doenças alérgicas como dermatite atópica, asma ou rinite alérgica, sempre foi retardar a introdução de alimentos potencialmente alergênicos.

A prevalência da alergia alimentar, em idade pediátrica, é em torno de 4 a 6%, e isso configura um problema de saúde pública.

Essa desordem é caracterizada pela resposta imunológica de hipersensibilidade à ingestão de determinado alimento, que poderá ou não ser mediada por imunoglobulina E (IgE). A hipersensibilidade IgE mediada adquire um espetro clínico particular e está envolvida na patogênese de reações clínicas potencialmente mais graves. Esse conceito é claramente diferente das intolerâncias alimentares, que não são mediadas por mecanismos imunológicos, podendo estar associadas a reações de toxicidade alimentar por componentes químicos presentes nos alimentos ou por distúrbios metabólicos que levam à baixa produção de enzimas digestivas.

Por conta da imaturidade imunológica da barreira intestinal, a infância é o período mais susceptível ao desenvolvimento de alergias, visto que a atividade enzimática é reduzida no período neonatal e a imunoglobulina A (IgA) secretora não se encontra completamente desenvolvida até os quatro anos de idade.

Cerca de 90% das alergias alimentares em pediatria são provocadas por apenas oito alergênicos: proteínas do leite de vaca, soja, ovo, peixe, marisco, amendoim, frutos secos e trigo.

Uma reação adversa a um alimento pode abranger ampla cascata de eventos que ocorrem após a ingestão. A alergia alimentar é um tipo específico no qual uma reação patológica imunomediada a um alérgeno específico ocorre após sua exposição a uma superfície mucosa do corpo, que é tipicamente o trato gastrointestinal.

A maioria das reações imunológicas às alergias alimentares é mediada por IgE e tem como alvo uma ou mais proteínas específicas dentro de um alimento ‒ chamado de epitopo ‒ local de ligação para células IgE ou T específicas. Contudo uma pequena parcela de alergias alimentares envolve a imunidade mediada por células T para certas proteínas alimentares. Os principais tipos de alergias não mediadas por IgE são a síndrome da enterocolite induzida por proteína alimentar (FPIE), intolerância à proteína na dieta, enteropatia proteica e síndromes IgE/não-IgE mistas, como esofagite eosinofílica. A doença celíaca é uma gastroenteropatia imunomediada pelo glúten, não sendo considerada uma alergia alimentar.

Em 2013, foi publicada uma declaração, pela Canadian Pediatric Society e Sociedade Canadense de Alergia e Imunologia Clínica, sugerindo que não há benefício em retardar a introdução de qualquer alimento potencialmente alergênico além dos 6 meses de idade.

Ainda é aconselhável, majoritariamente, a prática do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, uma vez que já é comprovada sua eficácia na imunomodulação da criança.

Pode-se incluir, na alimentação, componentes imunomoduladores com efeito protetor contra o desenvolvimento de alergia, tais como ácidos graxos ômega-3, ácido ascórbico, betacaroteno, alfatocoferol, selênio e zinco, capazes de neutralizar o efeito deletério do estresse oxidativo presente na inflamação alérgica e reduzir o dano tecidual.

 


REFERÊNCIAS

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